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| Ano VI - Nº 93 - Dezembro de 2004 |
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Dentes naturais e implantes: sábios e * A corrida do ouro, feitiços e feiticeiros * Nilson Galhanone de Calasans Rego* |
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A história da Odontologia e da Periodontologia é conturbada; um trilhar repleto de meandros e equívocos de toda sorte, a dificultar, em última instância, a viabilização de uma clínica de real promoção de saúde; a saber, a preservação, em integridade, dos dentes naturais e dos trabalhos odontológicos realizados, longitudinalmente. Com exceção dos países escandinavos, nórdicos e alguns segmentos de Grã-Bretanha, Países Baixos e Cuba, a erradicação das cáries e o das doenças periodontais, em Saúde Pública e na clínica privada, ainda é utópica. Pelo contrário. Cada vez arca-se com custos mais elevados para se perder dentes; a despeito de uma tecnologia cada vez mais sofisticada e de profissionais cada vez mais bem treinados tecnicamente. Vive-se momento particularmente delicado. Em 1991, quando do reconhecimento da Implantodontia como especialidade no Brasil, delegou-se ao periodontista espécie de primazia para realização das implantações. Nada mais coerente e justo, estudiosos que somos dos tecidos de proteção e sustentação dos elementos dentários e de suas especificidades. Entretanto, a partir de então, constata-se, no dia-a-dia da clínica - inclusive periodontal -, uma negligência ainda maior no diagnóstico precoce e tratamento responsável dos problemas gengivais e ósseos; exatamente no momento em que a literatura especializada nos confirma perniciosa relação entre as doenças periodontais e problemas sistêmicos de várias ordens, a saber: doenças cardiovasculares e respiratórias, diabetes, enfermidades articulares, partos prematuros, SIDA, alterações dermatológicas, etc. Criou-se um dilema: como se compatibilizar interesses mercadológicos na clínica com uma ética odontológica totêmica? A saúde é menos rentável do que a doença. O tratamento periodontal, a preservação dos dentes naturais, bem mais acessível do que restaurá-los ou substitui-los proteticamente. Centrar a conduta odontológica em preceitos biológicos periodontais, implica, inevitavelmente, em abrir-se mão de ganhos mais expressivos, advindos da restauração/perda destes dentes; em dias globalizados, de capitalismo primata, selvagem e aético. Eis o impasse. Biologicamente, microestruturalmente, cabe destacar serem, em particular, as interfaces implante/gengiva/osso destituídas de INSERÇÃO conjuntiva - a despeito das tentativas - e de ligamentos periodontais; ao contrário daquelas dente/gengiva/osso. Portanto, dentes naturais - ainda que (bem) restaurados e tratados periodontal e endodonticamente - são, (histo) fisiologicamente, consideravelmente superiores aos implantes. Cabe também lembrar que as doenças perimplantares – mucosites e perimplantites, correspondentes às gengivites e periodontites – são igualmente nocivas e deletérias; porém, de evolução mais rápida. Privar os indivíduos de cuidados periodontais competentes, em prol de interesses de outras ordens ou por ignorância, implicará em condenar seus dentes prematuramente - mesmo que clareados à exaustão - e, em um segundo momento, condenar, igualmente, tratamentos endodônticos, ortodônticos, resinas, faces estéticas, porcelanas e implantes. Perderemos todos. Como profissionais, quando as conseqüências das omissões se impuserem, estaremos desmoralizados; por mais suntuosas que sejam nossas instalações e títulos. Perdem os pacientes; dinheiro, energia, esperança, saúde. E acumulam, além dos prejuízos e frustrações, tristezas e mágoas. Perde a Odontologia, então, cada vez mais desacreditada. Ganha, em realidade, apenas a “banca”, a indústria de materiais, da doença; o capitalismo boçal e escravocrata, do qual, sem nos dar conta, inocentes úteis, acabaremos por representar. E dele nos vitimar. Da mesma forma que se, em um primeiro momento, montamos a indústria do ensino e criamos um sem número de Faculdades de Odontologia; em um segundo, fundadores de um novo mercado – de oferta abundante, mais acessível, mas de organização e qualificação duvidosas -, acabamos, por nos tornar reféns dos aviltantes convênios - única forma do mercado abarcar tal contingente -; a pagar para arcar com os elevados custos e responsabilidades da clínica, em nossos consultórios. Mas essa já é uma outra questão; aliás, igualmente grave. Leituras recomendadas :
BELLINNI, H. T. Odontologia: uma perspectiva para este início de século. Sociedade Brasileira de Periodontologia. Jornal Periodonto. Piracicaba (SP). 2004, janeiro/março; nº 81: 10
PASSERI, L. A., NÓBILO, M. A. A., RIESCO, M. G. Dentes ou implantes? Quando optar? Sociedade Brasileira de Periodontologia. Jornal Periodonto. Piracicaba (SP). 2004, abril/junho; nº 82: 8-9.
REGO, N. G. C.; SILVA JR., O. C. Um histórico sobre a prática odontológica no Brasil. Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação: Revista Saúde, Sexo e Educação, n.º 21, Rio de Janeiro. 2000, abril/maio/junho, 2000.
* Cirurgião-dentista pós-graduado em Periodontia & Teoria Psicanalítica |