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aaa Ano VI - Nº 83 - Abril  de 2004

Cama de Gato

Plínio Augusto Rehse Tomaz*

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Você conhece uma brincadeira de criança em que uma faz um arranjo com um barbante amarrado em círculo com as mãos, e uma outra retira esse arranjo com um determinado movimento, fazendo uma nova formação desta vez em suas mãos e assim por diante, sempre uma dando continuidade à outra? Não estou bem certo, mas acho que isso se chama “cama de gato”.

Durante minhas férias com a família, estava na praia lendo um livro (não estranhe, eu adoro ler na praia) quando observei o momento em que uma de minhas filhas apresentou as mãos à sua irmã com o primeiro movimento da tal cama de gato, e ambas ficaram muito entusiasmadas com a brincadeira que estava apenas começando.

Veio a altivez do primeiro movimento das outras mãos. Depois a primeira retrucou e acrescentou um sorriso de quem estava dominando a brincadeira. Logo a outra fez um novo movimento e lhe roubou o barbante. Novamente a primeira e... a outra (agora já com alguma dificuldade), a primeira novamente (só que com alguns minutos de atraso para tentar lembrar como era mesmo esse movimento), até que... a brincadeira parou! Ninguém sabia continuar e eu observava tudo com os olhos por cima do livro. Discutiram algumas possibilidades, mesmo enquanto uma delas gesticulava com dificuldade por que estava com as mãos literalmente “atadas”. Esta até desconfiava de como fazer, mas suas mãos seguravam a “cama”. Pediram a ajuda sábia da mãe, que pôde ajudar com mais um movimento. Ufa!! Mas logo depois, travou de novo. Olharam para mim com um ar de esperança comovente.

“Não tenho a menor idéia”, tive de responder para sua imediata e sonora lamentação.

Fiquei vendo aquela brincadeira e permiti que minha mente viajasse por alguns instantes. Por incrível que pareça, percebi uma certa semelhança com nossa vida profissional. Não sei se estou ficando meio fanático ou “workaholic”, mas foi isso mesmo que me veio à mente: que  profissionais temos sido?

Muitos começam suas carreiras (e consultórios) com muito entusiasmo e motivação, com grande expectativa e sonhos, assim como minhas filhas demonstraram sentir quando deram os primeiros laços (?) de  sua cama de gato. Mas depois de algum tempo, já não sabem mais o que fazer com aquilo. Não conhecem mais o próximo passo. “O que faço agora?”.  “Como saio dessa situação?”. E aí se metem em um balaio de gato.

Talvez a melhor idéia fosse pedir ajuda à mãe, mas convenhamos, isso não costuma ser  a melhor solução para a administração e o sucesso de nossos consultórios.

O interessante é que a graça da cama de gato é exatamente o grau de dificuldade do próximo passo. Sempre tem alguém que quer provar a si mesmo, ou para o oponente, como pode ir mais longe. Uma das coisas que mais nos motivam a viver é o inusitado do futuro. O que realmente podemos fazer? As conseqüências destas ações serão mesmo como planejamos? Se é que planejamos! O bom da vida são os desafios, embora há quem os chame de obstáculos.

Tenha um nome ou outro eu opto por tê-los como motivação para vencer e não justificativa para parar.

Acontece também que os primeiros passos da carreira e da vida no consultório são mais ou menos de domínio do recém-empresário (consultório é uma empresa, lembre-se sempre disso). Todos querem arriscar e acham que dominam tudo aquilo. Lá pelas tantas é que começam a perceber que as mão já não sabem mais o que fazer com aquele nó. Como lidar com funcionários? E a inadimplência? Por que não me avisaram que estas coisas aconteciam? Como faço agora que minha agenda diminuiu e tenho que pagar 13º salário sendo que eu mesmo não ganho um?? Socorro!!

Há semelhanças com nossa vida profissional, mas há também grandes contrastes. Enquanto na cama de gato vamos repetindo os mesmos movimentos e nos aperfeiçoando neles a cada nova jogada, na vida profissional isso não é possível. Cada passo deve ser realizado no momento certo. Um após o outro. Podemos e devemos nos preparar, mas cada vez será a primeira. O jeito então é procurar conhecer as regras do jogo e a sua filosofia, ou seja, como e porque devo fazer cada movimento? Qual a lógica deles para que eu possa criar novos? Assim é que gostaria que todos pensassem sobre suas próprias carreiras e vida em consultório. Quais as regras do jogo do mercado? Por que meus pacientes me abandonaram? Por que ainda assim alguns insistem em ficar comigo e me adoram? É preciso entender como funciona o mercado e o nome disso é marketing.

Outra lição que tirei daquela cena foi que nada se pode fazer enquanto estiver com as mãos atadas. Quem carrega o problema não o pode resolver sozinho. Ou você prepara para o outro, ou joga. Traduzindo para nossa realidade: muitas vezes somos impossibilitados de ver as soluções daqueles problemas e dificuldades que insistimos em carregar e não compartilhar.

Em minha opinião o segredo está em ser humilde e saber pedir ajuda. Outro colega pode ter passado por aquela situação e sabe ajudar, assim como você pode ajuda-lo também. Quanto mais compartilhamos, mais multiplicamos. Jesus nos ensinou isso. Por que não praticamos até mesmo em nossas vidas profissionais? Por que queremos e teimamos em resolver tudo sozinhos? Vergonha de admitir que não sabe tudo?

A idéia de que dominando as técnicas da Odontologia você terá sucesso, há tempos não é mais válida. É preciso mais que isso. É preciso habilidades pessoais: comunicação, atenção, negociação, organização, etc.

Assim como na cama de gato, o seu problema pode encontrar solução nas mãos de outra pessoa. Por isso, devemos buscar ajuda sempre que não soubermos como dar o próximo passo.

Minhas filhas desistiram da brincadeira e voltaram a construir castelos de areia.  E por falar em castelos de areia, me lembrei de outra analogia...bom, deixe esta para outra oportunidade.


* Plínio Augusto Rehse Tomaz é cirurgião-dentista e diretor da Tomaz Assessoria e Marketing S/C Ltda. Autor do livro "Marketing para Dentistas - Orientações ao Consultório-Empresa" (Navegar Editora, 4ª edição, 2004) - Página na Web: http://www.tomazmkt.com.br   - e-mail: tomaz@tomazmkt.com.br 

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