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A Saúde Oral nos Países da América Latina
Uma Visão Geral
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Colômbia - Prof.Victor Hugo Montes Campuzano*

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América Central, Caribe e América do Sul têm em comum não apenas sua histórias, suas culturas e obviamente sua localização geográfica, mas também suas próprias expectativas, suas angústias e seus problemas e também suas vitórias em seu caminho ao desenvolvimento, a qualidade de sua gente, seus valores humanos e sua dignidade. Sua Saúde se caracteriza por carências e tendências à maior deterioração, não por inanição, mas pela chegada de políticas e normas de estabelecimento internacional rigorosamente impostas por diferentes governos.

    A globalização da economia, a privatização de tudo o que tem vestígios de estatal, inclusive de suas grandes e rentáveis empresas pretroleiras, de geração elétrica, de telefonia, aeronáutica, financeiras e de outros tipos. Mas o que enche a taça é a venda da maior das "Empresas": a da Saúde, entregue aos "donos" de cada país, os quais, sob magnânimas condições usufruem de uma das mais transcendentes necessidades da humanidade, já duas vezes milenária, que é o direito à Saúde

    Além da moradia e alimentação, as quais os poderes econômicos também detêm em seu benefício, falemos do recurso humano: o dentista na América Latina, em geral, está subutilizado e desempregado. As profissões médicas deixaram de ser chamadas de profissões liberais para converterem-se agora em dependentes das entidades que as leis autorizam a criar. Empresas estas captadoras dos recursos para a seguridade social e empregadoras dos profissionais deslocados de seus consultórios ou clínicas, com honorários de fome, e obrigando-os a produzir como máquinas, chegando a prejudicar a qualidade do atendimento.

    Os mesmos aberrantes interesse econômicos que hoje movem o "Festival Neoliberal da Saúde" ocasionou o oferecimento de planos obrigatórios de Saúde mutilados e mutiladores do direito das pessoas em receber tratamento integral para sua Saúde, oferecendo-lhes, como quem está negociando uma mercadoria qualquer, duas ou três atividades que nem sempre preenchem suas necessidades, pelo valor que hoje o cliente, e antes o paciente, deve cancelar para poder ter direito ao plano.

    Por outro lado, a "livre empresa", muito estimulada pelas disposições econômicas dominantes, permitiu ao setor educativo dos países da América Latina o surgimento de um número inusitado, aterrador e perigoso de todo o tipo de programas de pré-graduação em Odontologia, como também de pós-graduação e pessoal auxiliar. Basta dizer que na Colômbia, de quatro faculdades ou escolas que funcionavam em 1975, na década de 80 eram 12 e de 1993 até agora são 29. Coisa parecida ocorre no Peru, onde estão criando programas como quem monta fábricas de sapatos. O que ocorreu, então? A oferta superou a demanda e disto estão se aproveitando as instituições que controlam a prestação dos serviços de saúde, com irrisórios pagamentos aos profissionais de Saúde. Pagamentos estes que às vezes não ultrapassam o que durante certo tempo, recebem numa atividade similar, durante determinado tempo, por seu trabalho um barbeiro ou cabeleireiro.

    Claro está que tudo isto afeta mais o estado da Saúde, em nosso caso, a Saúde Oral, que na região da América Latina está a cargo de 350 mil odontólogos, mas que hoje, em muitas partes de nosso território, estão submetidos a uma espécie de perseguição que os desestimula e, em muitos casos, o fizeram trocar de profissão pela de comerciante, vaqueiro, empregado ou motorista do serviço público.

    É justo que isso aconteça ao principal responsável pela Saúde Oral, ante as comunidades que necessitam dele, uma vez que lidam com níveis de saúde muito baixos, onde a prevalência de patologias orais continuam sendo muito alta?

    No Paraguai, por exemplo, 89% da população sofre ou sofreu de cáries dentais; a prevalência em periodontopatias é de 70% e, ouça bem: de cada 100 pessoas maiores de 15 anos, 74 necessitam tratamentos protéticos.

    Mas no Equador, país de 12 milhões de habitantes, com 15 mil odontólogos (dados de 1997), 99% da população apresentam cáries ou seqüelas delas, e aplicado o índice de Roussel para doença periodontal, chega a uma porcentagem próxima de 98, necessitando qualquer classe de reabilitação bucal 95% dos maiores de 15 anos.

     No Brasil, com 150 mil odontólogos e 90 escolas de Odontologia que formam 8.300 novos profissionais/ano, existem regiões como Vitória onde há 280 habitantes por um dentista, uma obturação por superficie, ao preço de 5 dólares americanos.

    Na Argentina, encontramos cifras de 97% da população com patologias orais, mas desses, 90% não recebem atenção programada. O COP em crianças de 9 a 12 anos é de 5.60, o que se considera bastante alto e olhemos isto: 50% dos odontólogos da Província de Buenos Aires ( a mais importante), não faturam mais de 500 dólares/mês para o sistema de seguridade social, sem melhores perspectivas já que a população profissional cresce 7% e a população em geral, 2%. O subemprego e o desemprego fazem com que os odontólogos trabalhem a 2,3 e 5 dólares a hora.

    É inconseqüente que, diante destes quadros, um dentista equatoriano não possa cobrar mais de 20 dólares americanos por uma exodontia, enquanto em El Salvador essa mesma exodontia custe 10 dólares e um tratamento de conduto radicular, 40 dólares.

    Há incongruências, muitas, e diria que incompreensões. Ao odontólogo se exige e este deve corresponder como universitário e como acadêmico que é, mas seu bem-estar pessoal e o de sua família se vão abaixo. Há angústia e, porque não dizer, rebeldia contra as entidades gremiais que os representam e até chegam a ser consideradas culpadas pelo que ocorre. Este é um grave conceito que é urgente corrigir, já que o que se necessita é a Unidade Profissional, para poder lutar com possibilidades de êxito, como já fez o Chile. Nesse país, um Movimento Solidário e total dos trabalhadores de Saúde, forçou o Estado a retomar, em alguma medida, a responsabilidade de dar Saúde aos cidadãos, assumindo atividades protecionistas , as quais tanta lenha forneceu aos seguidores da teoria de ter Estados micro em compromissos do tipo social, mas talvez macro em gastos oficiais, burocracia de alto nível, desperdício e até corrupção.

    Lamento que não possa referir-me a melhores situações de Saúde Oral, mas não posso fazê-lo quando, além do mais, fenômenos como a usurpação ou empirismo ou exercício ilegal crescem de modo alarmante em pleno século XX1, ocasionando mais danos à Saúde de nossas populações. É este o caso do Paraguai, onde para cada dentista graduado há seis ilegais. Mesmo na Colômbia, país com 30 mil odontólogos, se fala em 90 mil empíricos.

    E sem ser um obstinado pessimista e nem tão pouco apocalíptico, não posso falar de melhor Saúde Oral porque medidas de prevenção massiva de cárie dental são desmontadas ou afetadas gravemente porque a livre concorrência permite a entrada de sais de consumo humano, sem flúor nem iodo, em países que têm um bem montado programa de fluoração de sal, como a Colômbia.

    Nos cabe, para concluir, e como organização da Odontologia, propor medidas, planos e programas, para que com uma perspectiva correta, os países em desenvolvimento, com seus próprios recursos adequados ao seu meio, incrementem a solução de suas necessidades em Saúde Oral.


* O prof.Victor Hugo Montes Campuzano é presidente da Federação Odontológica Colombiana, magistrado do Tribunal Nacional de Ética Odontológica e Professor Titular da Universidade Nacional da Colômbia.


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