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Fernando Luiz
Brunetti Montenegro
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ARTIGO -
FERNANDO LUIZ BRUNETTI MONTENEGRO
Edição 172 - 14/12/2011
Atenção odontológica para
idosos em unidades de internação*
Fernando Luiz Brunetti
Montenegro**
Leonardo Marchini ** *
Carlos Eduardo Manetta****
O objetivo geral da intervenção odontológica é
melhorar a condição bucal
do paciente idoso2, proporcionando-lhe uma melhor qualidade de vida.
Com base em
extenso levantamento bibliográfico, Montenegro e Gonçalves13,
salientam a importância de uma limpeza bucal adequada na prevenção
de doenças respiratórias, em especial nas pneumonias, em pacientes
acamados e institucionalizados. Reforçam a importância da
higienização constante e adequada das próteses dentárias e da porção
posterior da língua, bem como dos dentes e rebordos alveolares, a
fim de prevenir a extensa proliferação bacteriana observada nesses
pacientes.
Por outro lado, segundo Nicolau et al.15, a saliva desempenha um
importante papel na manutenção das condições fisiológicas normais
dos tecidos orais por ter funções como a limpeza da boca, a
pré-solubilização de substâncias dos alimentos, a formação do bolo
alimentar, a facilitação da mastigação e da deglutição, a
lubrificação das mucosas, a facilitação da fala, a proteção dos
dentes, a ação digestiva e antimicrobiana, as quais são fundamentais
não só ao meio bucal per se, mas para todo o sistema digestivo.
Além disso, a ausência de fluxo salivar normal pode favorecer o
aparecimento de candidíase bucal, exacerbar sintomas de mucosites,
mudar o gosto dos alimentos, causar sensação de queimação bucal e
provocar o surgimento de cáries rampantes.
A saliva também é importante no controle complementar da hipertensão
e do diabetes. Segundo Brunetti e Montenegro2, mesmo quando os
pacientes são conscientes de suas doenças usam mais sal ou açúcar
que o necessário em sua dieta por não sentirem precisamente o gosto
dos alimentos. Isso ocorre porque boa parte das papilas da língua
pode estar recoberta por restos de alimentos (saburra) ou o
indivíduo ingere medicamentos que provocam a diminuição da
fabricação de saliva, que também ajuda a limpar as papilas
gustativas (localizadas na porção posterior da língua), os tecidos
moles, as próteses e os dentes naturais remanescentes .Essa situação
pode ser agravada quando o paciente realiza muitos bochechos com
líquidos antissépticos.
Identificação de problemas odontológicos que exigem intervenção
para minimizar / prevenir dor, desconforto e complicações sistêmicas
(pneumonia aspirativa)
A perspectiva da
prevenção é reforçada pelo recente trabalho de Awano et al.1
realizado com 1282 idosos japoneses. O estudo correlacionou
pneumonia, saúde bucal e mortalidade e observou que a taxa de
mortalidade era 3,9 vezes maior nos pacientes que apresentavam
problemas periodontais como as “bolsas gengivais”, uma alteração
bucal bastante incidente na terceira idade. Os autores concluíram
também que o maior número de dentes com problemas periodontais nos
indivíduos analisados poderia estar fortemente associado com a
mortalidade aumentada oriunda de pneumonia.
É importante
salientar que a presença de lesões orais em idosos é frequente e,
embora a maioria tenha caráter inflamatório (hiperplasias
inflamatórias e estomatites), relacionada ao uso de próteses mal
adaptadas e/ou ao acúmulo de placa bacteriana5, exames frequentes
são mandatórios, uma vez que a faixa etária de maior prevalência de
carcinomas orais é composta por pessoas acima de 60 anos.
Propiciar uma melhor mastigação para a ingestão eficiente de
nutrientes-chave, com consequente reflexo positivo nos aspectos
nutricionais
Shimazaki et al.18
avaliaram 1.929 idosos em estudo longitudinal de 6 anos e observaram
que os pacientes dentados tiveram maior longevidade, especialmente
porque puderam ter uma dieta mais rica em bons nutrientes em
comparação à dos idosos com menos de 20 dentes ou que deixavam de
usar suas próteses. Corroborando com essa tendência, Sheiham et
al.17 analisaram idosos por meio de entrevistas, exame bucal,
controle alimentar e exames de sangue e urina e concluíram que ter
21 ou mais dentes é compatível com uma boa capacidade dietética e
ingestão ótima de nutrientes. Também observaram que nos indivíduos
parcialmente dentados e nos desdentados os valores de vitamina C e
de retinol do plasma são menores, reforçando a tríade:
SAÚDE ORAL
ADEQUADA = BONS NUTRIENTES = BOA SAÚDE GERAL
Nesse contexto,
deve-se salientar o trabalho de Nowjack-Raymer e Sheiham16 que, após
analisarem 6.985 pacientes, nos EUA, quanto ao número de dentes
presentes e a condição nutricional, concluíram que pessoas com um
número menor de dentes ingerem menos vegetais, deixando de consumir
nutrientes importantes e fibras, cujo consumo é de extrema
necessidade na terceira idade.
Melhora da estética facial para facilitar o relacionamento
interpessoal
A utilização de
próteses para substituir os dentes ausentes além de aprimorar a
mastigação permitindo a formação de um bolo alimentar mais adequado
melhora a estética facial, principalmente quando há dentes
anteriores ausentes. A melhora da estética facial traz consequências
benéficas para a autoestima dos pacientes, fato que pode auxiliar no
combate à depressão, alteração frequente em pacientes idosos14.
Atuação com o idoso e com sua rede de suporte social/cuidador
Para o sucesso da
terapia odontológica, é fundamental a colaboração do idoso e de sua
rede de suporte social (cuidador) para a execução adequada não só do
tratamento, mas também das rotinas de higiene bucal e dos exames
orais constantes. Desse modo, a correta orientação dos idosos e/ou
de seus cuidadores para a importância da saúde oral é condição sine
qua non para obtenção da melhora da condição bucal da população
idosa.
Problemas mais frequentes
Segundo Ship et
al.20, Ship19, Chalmers et al.3, Friedlander et al.7 e Fiske et
al.6, as alterações bucais mais comuns nessa faixa etária são
higiene oral deficiente, aumento de doença periodontal e do número
de dentes cariados, resultando em estado precário da dentição
remanescente e alta demanda por tratamentos restauradores e
protéticos relativamente extensos, sintomas xerostômicos diversos e
dificuldades para deglutir, colocar as próteses e executar sua
correta higiene. Em idosos institucionalizados no Brasil, o quadro é
semelhante, embora a incidência de alterações bucais seja ainda
maior11.
As alterações são
agravadas pelo pouco conhecimento da importância da saúde oral para
o restabelecimento e a manutenção da saúde sistêmica, pela presença
insuficiente de cirurgiões-dentistas em equipes multiprofissionais
de atendimento ao idoso e pela falta de orientação do idoso e/ou seu
cuidador quanto à higiene oral.
Os cuidadores
exercem papel preponderante na avaliação e na manutenção da saúde
oral dos indivíduos idosos, mas estes, conforme Lin et al.9 e Hugo
et al.12, dão menor prioridade aos problemas bucais, os quais
recebem pouca atenção. Isso ocorre por falta de conhecimentos
específicos, treinamento dirigido e, até mesmo, por falta de tempo.
Instrumentos utilizados
O principal
instrumento para melhorar a condição bucal do idoso
institucionalizado é a incorporação do odontogeriatra nas equipes
multidisciplinares de atendimento ao idoso, tornando a atuação
odontológica contínua, e não esporádica e ocasional, como tem sido
atualmente.
Lin et al.9 e Hugo
et al.12 destacam, ainda, a importância de o odontogeriatra oferecer
ao cuidador as informações necessárias para a realização de cuidados
com a saúde bucal dos pacientes, adequados e rotineiros, como um
componente essencial para o sucesso do tratamento odontológico.
Outro motivo
pelo qual é importante a presença do odontogeriatra nas instituições
de amparo ao idoso é a existência de pacientes com problemas bucais
específicos, como a hiposalivação permanente. Esses pacientes devem
receber orientações específicas como evitar ingerir álcool e comidas
condimentadas, efetuar um eficiente controle mecânico (escovação e
uso do fio dental) e químico (com bochechos à base de clorhexidina a
0,12%) da flora bacteriana, usar gomas de mascar (à base de xilitol)
de sabores cítricos (p. ex. laranja ou limão) para estimular a
salivação, utilizar saliva artificial quando necessário. Também é
preciso visitar o dentista a cada três meses para verificar se a
higiene bucal está sendo realizada de forma correta. Recomenda-se,
ainda, que o idoso utilize colutórios com alta concentração de flúor
para proteção das raízes dos dentes, em geral expostas nessa fase da
vida10.
Mediante avaliação
criteriosa das condições clínicas e bucais dos pacientes, o
odontogeriatra pode auxiliar a equipe multidisciplinar a instituir
rotinas diárias de higiene bucal (com modificações oportunas quando
necessário, como a utilização de escovas elétricas e colutórios
fluoretados, entre outras medidas simples) e/ou alimentares
(solicitar restrição de sacarose para diminuir a incidência de
cáries e de problemas gengivais); indicar aos médicos a necessidade
de substituição de medicamentos (para restabelecer o fluxo salivar
adequado); realizar avaliações periódicas para diagnosticar
precocemente lesões orais e realizar tratamentos odontológicos que
melhorem a saúde oral, oferecendo maior conforto e qualidade de vida
para o paciente idoso institucionalizado.
Raspadores e higienizadores de língua
Sobre a importante
higiene da língua, é válido acrescentar que os raspadores e
higienizadores de língua, mesmo sendo de plástico, possuem uma ponta
ativa e devem ser usados uma vez por dia após a última refeição e em
pacientes não anêmicos. Sugere-se sua passagem por toda a língua de
forma suave, desde as laterais até as porções mais posteriores, nas
quais estão situadas as papilas gustativas. É muito importante de
limpar que as papilas sejam higienizadas, especialmente em pacientes
com diminuição do fluxo salivar, já que as escovas de dentes
tradicionais não conseguem atingi-las por provocarem ânsia de
vomito. Seu uso é individual (recomenda-se colocar o nome do
paciente na haste) e sua limpeza deve feita com clorhexidina sempre
após a utilização; é recomendada a substituição de 6 em 6 meses2.
Em pacientes
idosos com anemias graves, deve-se optar pelo uso de higienizadores
de língua que não têm ponta ativa (arredondados), feitos de metal.
Seu uso deve ser individual, diário e realizado de forma bem suave.
Após utilização, devem ser autoclavados.
Vantagens e limitações dos instrumentos no contexto abordado
A principal
vantagem da incorporação do odontogeriatra na equipe de atendimento
ao idoso é a possibilidade de oferecer um cuidado mais abrangente,
com indiscutíveis reflexos positivos na qualidade de vida dos
pacientes. Entretanto, para que haja o efeito desejado, é necessário
que essa incorporação não seja esporádica e sim permanente; para que
as rotinas de higiene oral, as avaliações orais e eventuais
tratamentos sejam fornecidos de forma contínua11.
Atualmente, a
maior limitação para a realização desse intuito é o pequeno número
de profissionais com formação específica em odontogeriatria no
Brasil; são cerca de 210 profissionais registrados no Conselho
Federal de Odontologia, dispersos nos estados e cerca de duas
dezenas que ainda estão realizando seus cursos de especialização em
entidades reconhecidas4.
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flow in dementia of the Alzheimer’s type. J Gerontol 1990;
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fbrunetti@terra.com.br
*Como publicado em
:Gerontologia:os desafios nos diversos cenários da atenção.Domingues
MA, Lemos,NR.São Paulo:Ed Manole,2010,p.299-308.”
**Fernando Luiz
Brunetti Montenegro é Mestre e Doutor pela FOUSP
***Leonardo
Marchini Mestre pela FOSJC e Doutor pelo ICB-USP
***Carlos Eduardo
Manetta Mestre pela UNIP Bacelar
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