Meu sorriso do ano - 2011
Foi de goleada. Nunca na história (ôps!...) do Prêmio Meu Sorriso do Ano os
amigos e amigas que me ajudam a escolher o ganhador concentraram tanto o
voto num candidato. Eu sei que você, caro leitor, acha que, também em 2011,
o prêmio Meu Sorriso do Ano só poderia ir para o Lula ou para a Dilma. Sim,
o Lula por causa daquele sorriso-careca-simpático-envergonhado-assustado que
circulou em toda a mídia tão logo sua foto foi divulgada, após o início do
tratamento do câncer. E a Dilma porque, afinal, passou o ano distribuindo
sorrisos e fazendo faxina... Também pudera, com tantos atropelos
ministeriais e até com ministro que manda beijinhos e diz publicamente “Dilma-eu-te-amo”,
governar o Brasil fica mesmo um pouco mais difícil. Poderia ser dela o
Prêmio deste ano, sem dúvida. Mas, dentre tantos ministros decapitados em
2011, vários também poderiam ser indicados para o Sorriso do Ano, pelo
simbolismo envolvido em cada cabeça cortada, e os sorrisos enigmáticos que
acompanharam cada um ao ir embora do governo. Preferi, contudo, ficar com o
que escreveu uma amiga eleitora do Prêmio: “esses ministros caídos não
inspiram nem um sorriso amarelo, quanto mais um sorriso do ano. No entanto,
considero equivocada (...) a responsabilização de indivíduos pela corrupção
que [aliás] não é exclusividade do sistema político brasileiro, mas inerente
ao capitalismo. É ubíqua. Assim, sai ministro, entra outro e a corrupção
persiste! (e o ministro caído continua a exercer sua influência). Apesar de
ver com bons olhos quando os que são pegos com a boca na botija serem
punidos com a perda do cargo, tenho certeza que não será esse o caminho de
uma real mudança: são indissociáveis a luta contra a corrupção e o combate
ao capitalismo”.
Mas, caro leitor, se nenhum ministro “caído”
foi eleito, vou logo avisando: nem o Lula nem a Dilma, mesmo com todos os
méritos, ganharam o Prêmio deste ano.
A goleada a que me refiro também não foi a do Barcelona sobre o Santos, na
final do campeonato mundial de clubes de futebol, disputada no Japão, em
dezembro. E olha que não foi uma goleada qualquer, não. Foi sim uma dessas
goleadas históricas. Um dos nomes cogitados por meus amigos e amigas que
escolhem o vencedor, foi o Neymar. Disseram que poucos riram e sorriram
tanto, e tão gostosamente, como ele em 2011. Porém, de fato, a derrota
acachapante para o ‘Barça’, na final, tirou o brilho do olhar do “moleque”,
como carinhosamente é chamado por amigos e colegas boleiros. Se este prêmio
não fosse o Meu Sorriso do Ano, mas o “Olhar do Ano”, o Neymar seria
imbatível por ter mostrado o olhar mais triste e dolorido de 2011. Só
insensíveis e gente sem coração poderiam ser indiferentes à tristeza daquele
olhar, no final do jogo. Consola, no entanto, saber que o “moleque” é
bastante jovem e que certamente terá outras oportunidades para que seu olhar
volte a brilhar em sintonia com o sorriso.
Antes de esclarecer sobre a goleada, devo
mencionar que Berlusconi foi cogitado como possível ganhador. Sim,
Berlusconi, claro, pois como deixar fora da lista esse falastrão
neofascista, com aquele sorriso amarelão-cínico, que transformou a gestão
econômica da Itália numa espécie de contabilidade de cantina de quinta
categoria? Mas, incluído na lista, não teve nenhum voto. Cá entre nós,
leitor – não comente com ninguém –, eu gostei muito dessa esfriada que meus
amigos e amigas deram nesse sujeito. Já passava da hora... Uma amiga foi
direta: “nem deveria ter entrado na lista, a não ser que lhe quebrassem mais
alguns dentes. Foi vaiado, perdeu apoio político e, sem saída, renunciou.
Foi tarde. Que nunca mais volte”.
2011 teve também a goleada eleitoral de Cristina Kirchner. Foi um verdadeiro
“baile” na oposição e ela sorriu. Muitos me asseguraram, porém, que ela não
sorriu feliz, sentindo a falta do ex-presidente Néstor Kirchner. Foi, de
fato, um sorriso-triste, esse da Presidenta argentina.
A goleada a que me referi foi a avalanche de
indicações e votos em Sócrates, o ex-futebolista, amplamente reconhecido por
seu talento e participação cidadã, falecido em 4 de dezembro. Curiosamente,
ele disse, em 1983, que queria morrer num domingo em que o Corinthians fosse
campeão, o que aconteceu no domingo, 4 de dezembro. Sócrates deixou um vazio
imenso, num país em que muitos boleiros são geniais jogando bola e
quase-sempre se revelam uns cabeças-ôca quando abrem a boca. Sócrates, ao
contrário, viveu intensamente o tempo dele, a época dele, sempre se
posicionou, tomou partido, liderou a “Democracia Corintiana”, um movimento
que deu voz aos atletas e participação nas decisões sobre assuntos
futebolísticos do time. Mais que isso, Sócrates se engajou no movimento
conhecido como “Diretas Já”, por eleições presidenciais com base no
princípio democrático do sufrágio universal direto, e participou de vários
atos públicos de natureza política, em aberta oposição ao regime militar.
Mereceu um obituário na revista The Economist, que destacou que ele tinha
como seus heróis de infância Fidel Castro, Che Guevara e John Lennon, e o
modo como o “Doutor”, ou “Magrão”, como também ficou conhecido, lidava com
vitórias e derrotas e o lugar em que colocava a vitória, tão obsessivamente
perseguida por tantos, nos gramados e na vida, sintetizados na frase “A
beleza vem em primeiro lugar. A vitória é secundária. O que importa é a
alegria”.
Para entender por que o Doutor Sócrates é o
vencedor do Prêmio Meu Sorriso do Ano-2011, destaco alguns comentários
feitos por meus amigos e amigas ao justificarem por que o escolheram:
Por tudo de bom que ele fez no futebol, mas principalmente pelo cidadão que
ele foi.
Tudo bem..., gostava de uma birita, mas com
certeza isso também deu a ele bons momentos, com boas risadas...
Viveu, venceu e sorriu! Exemplo de esportista
e de cidadão!
Não entendo nada de futebol, mas talento é
talento.
Que falta ele faz! Doutor em fazer jogadas
maravilhosas de calcanhar! Doutor em tratar seus companheiros de bola de
maneira fraterna e igualitária! Doutor em demonstrar como se deve amar o
país, com fala e gestos diretos! Doutor de lindo sorriso, inesquecível!
Amante da democracia e do bom futebol.
Não foi na escola, mas por causa do Sócrates
que, pela primeira vez, prestei atenção na palavra ‘democracia’. Na mesma
época, o Lula andava pelo ABC metido em greves e comícios, brigando, como
muitos, pela redemocratização. A democracia estava na boca do povo...
Limpo, transparente, simples, um cidadão
preocupado com o destino dos menos favorecidos. Levou a discussão e o debate
para dentro dos bastidores do futebol, sendo apoiado por outros ídolos,
mesmo fora do Corinthians, enfrentando os cartolas do futebol. Corajoso por
falar o que pensava, defendia a liberdade de posição e pensamento. Por estas
razões e pelo respeito que tenho por aqueles que lutam pela transformação de
seu pedaço, contribuindo para uma sociedade melhor... meu voto é dele.
Mostrou ao Brasil daquela época difícil que a democracia tem que valer a
pena!!!
Ao contrário da maioria dos jogadores de
futebol, pensou além da COMUNIDADE (no caso, a torcida do Corinthians... que
é uma baita comunidade!), mas percebeu o seu papel para a SOCIEDADE.
O Dr. Sócrates é patrimônio que orgulha a
sociedade brasileira. Deu o exemplo de valorização do estudo para jovens que
poderiam ver no futebol um atalho de ascensão social, deu o exemplo de
valorização da democracia num momento em que a sociedade brasileira mais
precisava disso. Não deu o exemplo de superar o vício do alcoolismo, mas que
raios ninguém é perfeito, ele deu o exemplo de ser humano, imperfeito, e
sofreu as consequências.
Um amigo me alertou: “meu voto é do Magrão.
Até porque ele morreu com uns cacos de dentes na boca...”
Curiosamente, disse uma amiga ao comentar
algumas fotos do Sócrates, “uma das que mais gosto é a do menino-velho, uma
das últimas, de uma suavidade plena. A foto com um ‘quase-sorriso’, ou
‘meio-sorriso’, uma insinuação de sorriso. Um sorriso calmo e enigmático,
que prefigura o ‘até breve, estou partindo’, mas também o ‘nos veremos
novamente qualquer hora dessas...’.”
Outra amiga acertou na veia: “voto no Sócrates pelo cidadão que ele foi.
Muito doente, e necessitando de um transplante, fez questão de dizer,
publicamente, que havia uma fila para o transplante e que ele, jamais,
furaria a fila”.
Sócrates, caro leitor, não furava filas. Também por isso é dele o Prêmio Meu
Sorriso do Ano 2011.
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Paulo Capel Narvai
Cirurgião-Dentista Sanitarista. Especialista, Mestre, Doutor e Livre
Docente em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’
(Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz).