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Paulo Capel Narvai
Cirurgião-Dentista Sanitarista. Especialista, Mestre, Doutor e Livre Docente em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’ (Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz).

ARTIGO - PAULO CAPEL NARVAI

Edição 173 - 05/01/2011

 

Meu sorriso do ano - 2011


Foi de goleada. Nunca na história (ôps!...) do Prêmio Meu Sorriso do Ano os amigos e amigas que me ajudam a escolher o ganhador concentraram tanto o voto num candidato. Eu sei que você, caro leitor, acha que, também em 2011, o prêmio Meu Sorriso do Ano só poderia ir para o Lula ou para a Dilma. Sim, o Lula por causa daquele sorriso-careca-simpático-envergonhado-assustado que circulou em toda a mídia tão logo sua foto foi divulgada, após o início do tratamento do câncer. E a Dilma porque, afinal, passou o ano distribuindo sorrisos e fazendo faxina... Também pudera, com tantos atropelos ministeriais e até com ministro que manda beijinhos e diz publicamente “Dilma-eu-te-amo”, governar o Brasil fica mesmo um pouco mais difícil. Poderia ser dela o Prêmio deste ano, sem dúvida. Mas, dentre tantos ministros decapitados em 2011, vários também poderiam ser indicados para o Sorriso do Ano, pelo simbolismo envolvido em cada cabeça cortada, e os sorrisos enigmáticos que acompanharam cada um ao ir embora do governo. Preferi, contudo, ficar com o que escreveu uma amiga eleitora do Prêmio: “esses ministros caídos não inspiram nem um sorriso amarelo, quanto mais um sorriso do ano. No entanto, considero equivocada (...) a responsabilização de indivíduos pela corrupção que [aliás] não é exclusividade do sistema político brasileiro, mas inerente ao capitalismo. É ubíqua. Assim, sai ministro, entra outro e a corrupção persiste! (e o ministro caído continua a exercer sua influência). Apesar de ver com bons olhos quando os que são pegos com a boca na botija serem punidos com a perda do cargo, tenho certeza que não será esse o caminho de uma real mudança: são indissociáveis a luta contra a corrupção e o combate ao capitalismo”.

Mas, caro leitor, se nenhum ministro “caído” foi eleito, vou logo avisando: nem o Lula nem a Dilma, mesmo com todos os méritos, ganharam o Prêmio deste ano.
A goleada a que me refiro também não foi a do Barcelona sobre o Santos, na final do campeonato mundial de clubes de futebol, disputada no Japão, em dezembro. E olha que não foi uma goleada qualquer, não. Foi sim uma dessas goleadas históricas. Um dos nomes cogitados por meus amigos e amigas que escolhem o vencedor, foi o Neymar. Disseram que poucos riram e sorriram tanto, e tão gostosamente, como ele em 2011. Porém, de fato, a derrota acachapante para o ‘Barça’, na final, tirou o brilho do olhar do “moleque”, como carinhosamente é chamado por amigos e colegas boleiros. Se este prêmio não fosse o Meu Sorriso do Ano, mas o “Olhar do Ano”, o Neymar seria imbatível por ter mostrado o olhar mais triste e dolorido de 2011. Só insensíveis e gente sem coração poderiam ser indiferentes à tristeza daquele olhar, no final do jogo. Consola, no entanto, saber que o “moleque” é bastante jovem e que certamente terá outras oportunidades para que seu olhar volte a brilhar em sintonia com o sorriso.

Antes de esclarecer sobre a goleada, devo mencionar que Berlusconi foi cogitado como possível ganhador. Sim, Berlusconi, claro, pois como deixar fora da lista esse falastrão neofascista, com aquele sorriso amarelão-cínico, que transformou a gestão econômica da Itália numa espécie de contabilidade de cantina de quinta categoria? Mas, incluído na lista, não teve nenhum voto. Cá entre nós, leitor – não comente com ninguém –, eu gostei muito dessa esfriada que meus amigos e amigas deram nesse sujeito. Já passava da hora... Uma amiga foi direta: “nem deveria ter entrado na lista, a não ser que lhe quebrassem mais alguns dentes. Foi vaiado, perdeu apoio político e, sem saída, renunciou. Foi tarde. Que nunca mais volte”.
2011 teve também a goleada eleitoral de Cristina Kirchner. Foi um verdadeiro “baile” na oposição e ela sorriu. Muitos me asseguraram, porém, que ela não sorriu feliz, sentindo a falta do ex-presidente Néstor Kirchner. Foi, de fato, um sorriso-triste, esse da Presidenta argentina.

A goleada a que me referi foi a avalanche de indicações e votos em Sócrates, o ex-futebolista, amplamente reconhecido por seu talento e participação cidadã, falecido em 4 de dezembro. Curiosamente, ele disse, em 1983, que queria morrer num domingo em que o Corinthians fosse campeão, o que aconteceu no domingo, 4 de dezembro. Sócrates deixou um vazio imenso, num país em que muitos boleiros são geniais jogando bola e quase-sempre se revelam uns cabeças-ôca quando abrem a boca. Sócrates, ao contrário, viveu intensamente o tempo dele, a época dele, sempre se posicionou, tomou partido, liderou a “Democracia Corintiana”, um movimento que deu voz aos atletas e participação nas decisões sobre assuntos futebolísticos do time. Mais que isso, Sócrates se engajou no movimento conhecido como “Diretas Já”, por eleições presidenciais com base no princípio democrático do sufrágio universal direto, e participou de vários atos públicos de natureza política, em aberta oposição ao regime militar. Mereceu um obituário na revista The Economist, que destacou que ele tinha como seus heróis de infância Fidel Castro, Che Guevara e John Lennon, e o modo como o “Doutor”, ou “Magrão”, como também ficou conhecido, lidava com vitórias e derrotas e o lugar em que colocava a vitória, tão obsessivamente perseguida por tantos, nos gramados e na vida, sintetizados na frase “A beleza vem em primeiro lugar. A vitória é secundária. O que importa é a alegria”.

Para entender por que o Doutor Sócrates é o vencedor do Prêmio Meu Sorriso do Ano-2011, destaco alguns comentários feitos por meus amigos e amigas ao justificarem por que o escolheram:
Por tudo de bom que ele fez no futebol, mas principalmente pelo cidadão que ele foi.

Tudo bem..., gostava de uma birita, mas com certeza isso também deu a ele bons momentos, com boas risadas...

Viveu, venceu e sorriu! Exemplo de esportista e de cidadão!

Não entendo nada de futebol, mas talento é talento.

Que falta ele faz! Doutor em fazer jogadas maravilhosas de calcanhar! Doutor em tratar seus companheiros de bola de maneira fraterna e igualitária! Doutor em demonstrar como se deve amar o país, com fala e gestos diretos! Doutor de lindo sorriso, inesquecível!

Amante da democracia e do bom futebol.

Não foi na escola, mas por causa do Sócrates que, pela primeira vez, prestei atenção na palavra ‘democracia’. Na mesma época, o Lula andava pelo ABC metido em greves e comícios, brigando, como muitos, pela redemocratização. A democracia estava na boca do povo...

Limpo, transparente, simples, um cidadão preocupado com o destino dos menos favorecidos. Levou a discussão e o debate para dentro dos bastidores do futebol, sendo apoiado por outros ídolos, mesmo fora do Corinthians, enfrentando os cartolas do futebol. Corajoso por falar o que pensava, defendia a liberdade de posição e pensamento. Por estas razões e pelo respeito que tenho por aqueles que lutam pela transformação de seu pedaço, contribuindo para uma sociedade melhor... meu voto é dele.
Mostrou ao Brasil daquela época difícil que a democracia tem que valer a pena!!!

Ao contrário da maioria dos jogadores de futebol, pensou além da COMUNIDADE (no caso, a torcida do Corinthians... que é uma baita comunidade!), mas percebeu o seu papel para a SOCIEDADE.

O Dr. Sócrates é patrimônio que orgulha a sociedade brasileira. Deu o exemplo de valorização do estudo para jovens que poderiam ver no futebol um atalho de ascensão social, deu o exemplo de valorização da democracia num momento em que a sociedade brasileira mais precisava disso. Não deu o exemplo de superar o vício do alcoolismo, mas que raios ninguém é perfeito, ele deu o exemplo de ser humano, imperfeito, e sofreu as consequências.

Um amigo me alertou: “meu voto é do Magrão. Até porque ele morreu com uns cacos de dentes na boca...”

Curiosamente, disse uma amiga ao comentar algumas fotos do Sócrates, “uma das que mais gosto é a do menino-velho, uma das últimas, de uma suavidade plena. A foto com um ‘quase-sorriso’, ou ‘meio-sorriso’, uma insinuação de sorriso. Um sorriso calmo e enigmático, que prefigura o ‘até breve, estou partindo’, mas também o ‘nos veremos novamente qualquer hora dessas...’.”
Outra amiga acertou na veia: “voto no Sócrates pelo cidadão que ele foi. Muito doente, e necessitando de um transplante, fez questão de dizer, publicamente, que havia uma fila para o transplante e que ele, jamais, furaria a fila”.
Sócrates, caro leitor, não furava filas. Também por isso é dele o Prêmio Meu Sorriso do Ano 2011.
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Paulo Capel Narvai
Cirurgião-Dentista Sanitarista. Especialista, Mestre, Doutor e Livre Docente em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’ (Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz).
 

 

 

 

 

 

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