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Ano X nº 154 -

 

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Editorial

Edição 153 - 18/05/2010

 

Triste realidade que persiste

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou o que há muito persiste como uma triste realidade: a saúde bucal vai muito mal. Ou de mal a pior, o que é lamentável para um país com 193 milhões de almas, sendo 30 milhões delas desamparadas também quanto a cuidados odontológicos. Outro trabalho, este da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, cujos resultados foram divulgados em 11 de maio último, indica que metade dos brasileiros entre 35 e 45 anos já perdeu pelo menos 12 dentes, e que cerca de 80% dos nossos idosos têm menos de 20 dentes. Além disso, 35% dos idosos que precisam de prótese dentária não têm acesso a esse recurso.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2008, instituída em 1998 com missão bienal, constatou ainda que apenas 6% da população consultam regularmente um cirurgião-dentista. Ficou claro pelos números do IBGE que houve progressos nesse tipo de assistência, apesar da gravidade da situação. Mas, no entender do Ministério da Saúde, houve avanço, porque um contingente maior teria buscado atendimento odontológico entre 98 e 2008. Um progresso pífio. A evolução vista pelas autoridades federais não passou de magros 7% em 10 anos! Os profissionais do setor, como os CDs em sua maioria, amargam com funesta lembrança o conhecimento desse panorama que não é de hoje, além do que os números recentes da PNAD são de dois anos atrás. Costuma-se dizer em áreas sérias da saúde que pesquisa e ações públicas devem andar juntas e atualizadas.

Apesar da desconfortável condição em que se encontram os CDs brasileiros, frente às suas dificuldades indesejáveis de atendimento à população em geral, a assistência pública e particular de saúde continua crescendo entre os brasileiros de todo o País. Dois anos atrás, conforme registros da PNAD agora divulgados, nada menos do que 80 milhões de pessoas estiveram em centros e postos de saúde em 2008 – 15% mais do que em 1998. Para o ministério, todos foram atendidos e supostamente tratados. Por outro lado, deve-se observar também que, por esses indicadores, quase metade da população brasileira anda doente pra valer e o restante vive bem, tem recursos, tem planos de saúde. O que não é absolutamente verdadeiro. A própria pesquisa induz a essa falsa realidade acreditada pelo Ministério da Saúde.

A diferença entre os profissionais do setor odontológico e a área governamental está no poder que a segunda dispõe para cumprir sua obrigação pública. Pesquisas atualizadas e confiáveis, verbas adequadamente aplicadas, critérios técnicos soberanos e mão de obra dedicada são tudo do que se precisa para mudar esse panorama que perdura ano após ano no Brasil; pesquisa após pesquisa.

Atenção e qualidade contam quase tudo na assistência à saúde. No tratamento odontológico, ainda mais. Mesmo com o crescimento da rede pública e particular do setor em todo o País, deve-se ponderar com atenção sobre o que de fato está sendo feito nos serviços colocados, teoricamente, à disposição da população. O maior número de atendimentos visto pelo Ministério da Saúde como avanço na realidade pode não ser bem isso, porque na outra ponta nota-se um crescimento vertiginoso dos planos de saúde particulares, inclusive os de caráter específico, como os odontológicos. Há cada vez mais brasileiros buscando assistência em clínicas e unidades privadas por conta da rapidez e da qualidade dos serviços oferecidos. No entanto, a falta de recursos empurra as pessoas para a rede pública, a qual sobrevive a duras penas para dar conta do recado. Do outro lado, percebe-se a expansão da rede particular o tempo todo, numa clara demonstração de que, mais dia, menos dia, esta assumirá de vez a saúde pública, que se tornaria totalmente privada. Talvez esse seja o plano oficial, obviamente não declarado. Por enquanto, vamos ficando com pesquisas novas e realidades velhas, como essa tristemente conhecida pelos CDs de todo o País.

Os editores

Zaíra Barros e Joaquim Lourenço

 
 

 

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