01/03/2010
Aos 69, dramaturgo espanhol volta mais
radical ao Brasil

É comum José Sanchis Sinisterra
perguntar a si mesmo: "Onde estou errando? Como posso melhorar?". Foi
procurando respostas que ele, frequentemente apontado como o maior
dramaturgo e diretor espanhol da atualidade, desembarcou em São Paulo, em 30
de janeiro, para dirigir a companhia As Magnólias na montagem de sua peça
"Flechas do Anjo do Esquecimento", que está em cartaz no Sesc Pinheiros.
Quando o espetáculo estreou na
Espanha, em 2004, Sinisterra não ficou satisfeito. "Errei na escolha de dois
atores e fui pouco radical. Desta vez, quero ser mais radical", disse ele à
reportagem da Folha de São Paulo, que vai completar 70 anos em junho.
"Flechas", primeira montagem de As Magnólias –formada por Eveline Maria,
Gabriela Fontana e Patrícia Gordo, com atores convidados – conta a história
de X, uma mulher que perde a memória e recebe, em uma clínica, a visita de
quatro pessoas. Cada uma delas é uma voz do passado que tenta dar a X uma
vida e uma identidade.
Para ser mais radical na
montagem brasileira, o espanhol está submetendo o elenco a um "processo
caótico de criação", que começa pelo corpo do ator e só depois entra no
texto teatral. "Cada personagem tem movimentos minimalistas que se repetem.
Eles são prisioneiros de condutas cíclicas", disse Sinisterra. "Temos a
ilusão de que a vida humana é linear, mas ela é repetitiva --fodidamente
repetitiva."
O autor gosta de trabalhar com
atores brasileiros. Sua primeira montagem no país foi "Ñaque", em 1991, com
a atriz Cristiane Jatahy no elenco. "O ator brasileiro é mais livre, mais
flexível, tem um corpo criativo e inteligente", disse ele. "Ele está sempre
inovando e revendo seu próprio trabalho. É muito profundo na sua
investigação de dramaturgia", contou Jatahy, que pretende montar, com Ana
Beatriz Nogueira e Caio Blat, "Deixe o Amor de Lado", texto inédito de
Sinisterra.
Presunção proibida – Desde que
começou a escrever para teatro, há 50 anos, Sinisterra produziu praticamente
um texto por ano, com um intervalo na década de 1970 que ele define como sua
"travessia do deserto", quando se dedicou mais a dar aulas. "Casei jovem,
tive minha primeira filha e precisava de dinheiro."
Foi com as peças "Ñaque, Piolhos
e Atores" (1980) e "Ai, Carmela!" (1986) – levada ao cinema em 1990 pelo
cineasta espanhol Carlos Saura – que Sinisterra nasceu para o mundo. De lá
para cá, venceu os prêmios teatrais mais importantes da Espanha, como o
Federico García Lorca, o Max e o Prêmio de Honra do Instituto do Teatro de
Barcelona.
A partir de 1985, ele passou a
ministrar oficinas de dramaturgia em diversos países. A América Latina é um
destino recorrente --daí ele ser tão encenado no Brasil, Argentina e Chile.
Para minar a presunção dos alunos, ele inicia suas oficinas dizendo: "Aqui é
proibido escrever obras de arte".
FLECHAS DO ANJO DO
ESQUECIMENTO
Quando: ter. e qua., às 20h30; até 30/3
Onde: Sesc Pinheiros - teatro Paulo Autran (r. Paes Leme, 195, tel.
3095-9400)
Quanto: de R$ 3,50 a R$ 15
Classificação indicativa: 10 anos