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Saúde
Edição 156 -
29/08/2010
Produção de fumo no
País ganha apoio de comissão do Governo Lula
Estudo prevê retorno dos maços de 10 cigarros # IPI de charuto pode
cair 50% # Linhas de crédito para a cadeia produtiva do fumo
A Câmara Setorial do Tabaco, ligada ao
Ministério da Agricultura, aprovou um documento denominado Agenda
Estratégica no final do mês passado para injetar recursos e reforçar a
produção de fumo no País. A medida é contraditória e caiu como uma
bomba inclusive dentro do Governo Lula, que assinou em 2005 a
Convenção-Quadro do Tabaco – acordo mundial antitabagista.
Observadores do setor entendem que por trás da decisão federal está a
indústria do tabaco, que vem trabalhando aqui e em outros países,
junto com hotéis, bares e restaurantes, no sentido de “democratizar” o
tabagismo e minimizar os efeitos do fumo passivo.
A decisão do Governo Lula vai contra
todos os esforços públicos, coletivos particulares e individuais de
banir o uso de tabaco, principalmente cigarros, em ambientes
coletivos. Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Amazonas,
Paraíba, Roraima e Rondônia já baixaram legislação específica
proibindo o uso do fumo em lugares públicos. Em São Paulo, por
exemplo, a lei de 2009 criou espaços totalmente livres de cigarro,
principalmente. No âmbito federal, no entanto, a lei restringe o
hábito de fumar em fumódromos. Alguns pesquisadores garantem dispor de
documentos que comprovam a interferência da indústria do fumo na
regulamentação oficial do uso do tabaco em lugares freqüentados por
fumantes e não fumantes.
Medida do Governo Lula
é “esquizofrenia total”
A diretora da Aliança de Controle do
Tabagismo, Paula Johns, classificou o conteúdo da Agenda Estratégica
aprovada com o aval do Ministério d Agricultura de “esquizofrenia
total: uma parte do governo morde e outra assopra o setor produtivo do
fumo”, conforme matéria publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo
nesta segunda, dia 12. Sua reação se explica: ao mesmo tempo em que o
Governo Lula constitui a Comissão Nacional para Implementação da
Convenção-Quadro do Tabaco, que estuda medidas para combater o
tabagismo no País, também cria dispositivos que favorecem a produção
de tabaco, injetando recursos para ampliá-la. O conteúdo da agenda
revelada ontem em Brasília prevê a captação de recursos públicos para
um programa de desenvolvimento e inovação do fumo e a criação de
linhas de crédito para o setor, com taxas de juros semelhantes ao do
Pronaf, que existe para atender às necessidades da produção agrícola
familiar. O crédito para a ampliação das lavouras de fumo bate de
frente com um plano federal assinado em 2005, de estímulo aos
fumicultores para diversificação dessa cultura. Seis ministérios
assinaram a política de auxílio ao setor para mudar de produção, que
agora voltaria a ser incentivado a produzir mais fumo.
Além disso, do mesmo documento da Agenda
Estratégica, consta sugestão de redução de impostos para a fabricação
de charutos e a volta das embalagens de cigarros com 10 unidades (que
custariam, obviamente, menos e por isso ampliariam o apelo do vício
tabagista junto ao público mais jovem). A venda de cigarro nesse
formato menor (“kid packs”) está proibida no Brasil desde 1998. O IPI
dos charutos cairia, ainda conforme a sugestão da Câmara Setorial do
Tabaco, de 30% para 15%.
A secretária executiva da Comissão
Nacional de Implementação da Convenção-Quadro do Tabaco, Tânia
Cavalcante, rebate a indignação demonstrada por alguns setores com
relação à Agenda Estratégica. “O que mais chama a atenção no momento
são as ações em contraposição às medidas da Convenção-Quadro. As
medidas antitabagistas são tratadas como ataques exagerados e sem
fundamento ao fumo”, disse também ao O Estado de S. Paulo.
Estudo comprova
interferência da indústria do tabaco
Um grupo de pesquisadores denunciou
recentemente que a indústria do tabaco atua junto ao governo no
sentido de manobrar a aprovação de políticas públicas antitabagistas.
As brasileiras Stella Aguinaga Bialous, da Tobacco Policy
International, Sabrina Presman e Analice Gibliotti, da Santa Casa de
Misericórdia do Rio de Janeiro, e os americanos Monique Muggli e
Richard Hurt, da Mayo Clinic, publicaram em revistas científicas
internacionais um estudo que documenta a reação da indústria do tabaco
e seus aliados na regulamentação do uso do fumo no Brasil.
Segundo eles, a interferência foi
ostensiva, para criar ambientes fechados destinados exclusivamente a
tabagistas. Dessa maneira, o lobi teria funcionado na primeira lei
federal restritiva ao fumo no País, em 1996, que separou fumantes de
não fumantes num mesmo espaço. Sabe-se, atualmente, que isso não
funciona, que o não fumante acaba sendo contaminado pelos males do
tabaco como fumante passivo. Toda a ação da indústria foi feita, como
em outros países, por trás de ações públicas promovidas por hotéis,
bares e restaurantes, através de parcerias. A estratégia básica, e que
em muitas situações funciona até hoje em muitas cidades, é a do
convívio democrático com os fumantes, num ambiente de “respeito ao
direito de todos”.
Os pesquisadores afirmam que a indústria
do tabaco continua praticando sua oposição, “sobretudo através de
grupos e associações de bares, restaurantes e similares, e continua a
promover o programa Convivência em Harmonia no País. Uma das
estratégias propostas é o recurso jurídico, contestando as leis”,
conforme destacam em seu trabalho.
Mais informações sobre o fumo passivo
e estratégias da indústria estão neste endereço da internet:
http://www.actbr.org.br/biblioteca/fatos-destaque.asp
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O estudo completo pode ser obtido em
http://www.actbr.org.br/uploads/conteudo/445_paper_Brasil_SHS_final.pdf
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