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Saúde
Edição 171 - 01/12/2011
Dia Mundial de
Combate à Aids
A Odontologia
e o atendimento aos pacientes com Aids
O CD tem papel importante no diagnóstico
das manifestações oportunistas, na descrição clínica do paciente e
no diagnóstico da infecção pelo HIV
A
epidemia de Aids completa três décadas, e junto com ela, ocorreram
muitas
conquistas
e muitas perdas, e ainda respostas à epidemia que mexeram com
aspectos sociais, culturais, crenças religiosas e verdades
científicas.
A luta contra a Aids
está longe do fim. As Nações Unidas divulgaram recentemente que 34
milhões de pessoas no mundo convivem com o vírus HIV, que pode
causar a Aids, até o fim de 2010. O novo balanço de soropositivos
foi divulgado pela Unaids, braço da organização que mantém
estatísticas e iniciativas sobre a doença. O número recorde, segundo
a agência, se deve ao prolongamento cada vez maior da vida de
pessoas contaminadas, graças aos avanços nas terapias contra
doença.No ano passado, foram 2,7 milhões de novas infecções pelo HIV
e 1,8 milhão de óbitos por conta de complicações ligadas à Aids. Tal
mortalidade vem caindo significativamente em função das terapias
antirretrovirais existentes atualmente e da adesão a essas terapias.
Desde o início da epidemia, a Aids vem
sofrendo mudanças importantes. O primeiro ciclo foi caracterizado
pela infecção majoritária de homossexuais ou bissexuais masculinos (HSH).
O segundo, marcado pelo incremento significativo da categoria
usuário de droga injetável (UDI), e da heterossexualização da
epidemia (HET). No terceiro, observamos um avanço acentuado de
transmissão heterossexual, e o crescimento nos casos de mulheres
soropositivas, e em consequência a ocorrência da transmissão
vertical. No atual momento da epidemia, assiste-se um avanço da Aids
nos adolescentes iniciando sexualmente e, principalmente, na
terceira idade.
No começo da epidemia, os pacientes muitas vezes não viviam mais do
que dois anos após desenvolver a doença. Atualmente ao estudar o
modo como o vírus ataca as células imunológicas, os cientistas
desenvolveram categorias de drogas que evitam a multiplicação do
vírus HIV que usadas em combinações conhecidas como “coquetel”,
ajudam os pacientes a viverem por um período maior de tempo e com
melhor qualidade de vida.
Manifestações bucais
As manifestações bucais da infecção pelo HIV são frequentes e podem
representar os primeiros sinais clínicos da doença. Podem ser
indicadoras de comprometimento imunológico, minimizando o tempo de
evolução da doença até a fase de Aids. Desde o início da epidemia,
muitas manifestações bucais foram relacionadas à infecção pelo HIV.
Diversos autores relatam que o estudo dessas manifestações bucais
são fundamentais para auxiliar o entendimento da epidemiologia da
Aids.
Com o início da terapia antirretroviral altamente potente (HAART),
pesquisadores verificaram a redução acentuada na ocorrência de
infecções oportunistas, mas outras manifestações e complicações,
relacionados aos efeitos adversos causados pela HAART, tornaram-se
muito frequentes, sendo as sialolitíases, as xerostomias, aumento
volumétrico da parótida, os líquen planos, as pigmentações mucosas
medicamentosas, as mucoceles, as rânulas, e os hemangiomas.
Ocorrem ainda alterações metabólicas importantes como o diabetes
mellitus, do trabeculado ósseo, e da lipodistrofia, conjunto esse de
alterações denominado síndrome lipodistrofia, e a odontologia se faz
presente a todo momento diagnosticando, intervindo preventivamente e
no tratamento reparador desses pacientes.
Mesmo assim, ainda as manifestações bucais podem representar os
primeiros sinais clínicos da doença, sendo indicadoras de
comprometimento imunológico, do tempo de evolução da doença, como
marcadores de infecção, como avaliadores da adesão dos pacientes aos
esquemas terapêuticos, do diagnóstico precoce das infecções e
indicadores da falência terapêutica.
Além da Aids, muitas outras doenças sexualmente transmissíveis
proliferam desordenadamente, e segundo a OMS existem 340 milhões de
casos no mundo, sendo registrados 685 mil casos diariamente.
Outros tantos milhões de DST não curáveis, ocorrem anualmente, como
o herpes genital e oral (HSV-2), o Papiloma Vírus Humano (HPV), a
sífilis, a tuberculose, as hepatites, e todas com repercussões na
cavidade bucal. Só 200 mil casos são notificados por ano no Brasil.
As DST de notificação compulsória são Aids, HIV na gestante/criança
exposta, sífilis na gestação e sífilis congênita. Para as outras DST
não há um sistema de notificação, dificultando a sua visibilidade.
As DST funcionam como co-fator para transmissão do HIV, sendo que as
úlceras orais e genitais facilitam e aumentam em 4,7 vezes a
infecção, a gonorreia em 4,7 vezes, o herpes em 3,3 vezes, e a
sífilis em 3 vezes. Importante ressaltar que o HPV é um importante
facilitador em 3,7 vezes, e comprovadamente hoje ele é um dos
grandes responsáveis pelo câncer em cavidade bucal, pois os pares 16
e 18 diagnosticados como responsáveis pelo câncer de colo de útero
são os mesmos.
O
cirurgião-dentista tem um papel importante no diagnóstico das
manifestações oportunistas, na descrição clínica do paciente e no
diagnóstico da infecção pelo HIV. Para tanto, deve o cirurgião
dentista estar treinado e capacitado sobre as intercorrências dessas
patologias, sabendo diagnosticá-las e tratá-las a contento.
Devemos ressaltar a importância vital que o Programa Municipal em
DST/Aids, tem, junto aos Serviços de Saúde, pois com os seus 15
Centros de Atendimentos Especializados, compõem também no seu quadro
de recursos humanos, cirurgiões-dentistas.
O
Programa DST/Aids do Município de São Paulo, preocupado em melhorar
as condições do atendimento odontológico a esses pacientes, investiu
em educação permanente, capacitandos-os, treinandos-os, e na
aquisição de consultórios novos totalmente equipados para todos os
serviços, permitindo um inestimável acesso à integração de todos os
serviços no diagnóstico e tratamento desses pacientes, sem distinção
das diferenças sociais, das adversidades, dos preconceitos banais,
dos medos, dos estigmas, dessa comunidade tão carente de
atendimento, vivenciando assim experiências grandiosíssimas no campo
da saúde compreendendo todos os setores e a interligação entre todas
as especialidades inclusive a odontologia, visto que o Programa a
qual referimos, tem hoje um inquestionável atendimento por
excelência.
A
meta atual do programa é a confecção de próteses bucais (totais e
parciais) atendendo a reposição dos elementos dentais a todos os
pacientes, principalmente os acometidos pelos efeitos adversos da
HAART (lipodistrofia facial) melhorando as condições da fonética, da
alimentação e de estética desses pacientes.
Hoje, o serviço de Odontologia apresenta pesquisas em vários
congressos nacionais e internacionais, inclusive no III Congresso
dos Países de Língua Portuguesa em DST/Aids, que aconteceu em Lisboa
– Portugal, em março de 2010.
A
atuação direta junto a estes grupos de trabalho surtiu importantes
frutos na área do conhecimento, sendo esses conhecimentos aplicados
com a finalidade da promoção da saúde, bem estar e melhorias na
qualidade de vida, frente aos sofrimentos humanos.
Dr.
Elcio Magdalena Giovani é cirurgião dentista da unidade Butantã do
Serviço de Atendimento de Assistência Especializada em DST/Aids da
Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.
Fonte: Agência de Notícias da Aids
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