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SAÚDE BUCAL
Edição 151 - 01/03/2010
Cirurgiões-dentistas
propõem tratar cárie deixando-a intacta
Um grupo de dentistas
brasileiros está propondo uma forma diferente de tratar pacientes com cárie.
Baseados em pesquisas nacionais e mundiais, eles afirmam que não é
necessário retirar completamente o tecido cariado do dente, como é feito
tradicionalmente, e que, em alguns casos, a cárie pode até ser deixada
intacta, apenas coberta por uma vedação.
São pesquisadores que
fazem parte de uma corrente chamada odontologia minimamente invasiva, que
propõe, entre outras questões, a retirada da menor parte possível de tecido
dentário – é esse, aliás, o argumento para a mudança na forma de tratamento
das cáries.
"O método convencional
traz um desgaste desnecessário da estrutura dentária, que não pode mais ser
reparada. A nova vertente traz evidências de que podemos remover menos
tecido", disse à reportagem da Folha de São Paulo, o dentista José Imparato,
que coordena um grupo de pesquisa em técnicas de mínima intervenção na
Universidade de São Paulo (USP). Ele apresentará uma das técnicas no 28º
Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo, que ocorre no fim de
janeiro.
Segundo Marisa Maltz,
professora titular de odontologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio
Grande do Sul), o problema de remover muito tecido é que o dente fica menos
resistente. "No caso de lesões pequenas, a remoção deixa o dente mais
frágil, mais sujeito a fratura. No caso de uma cárie mais profunda, pode
levar à exposição da polpa, o que requer um tratamento de canal, mais
complicado", afirmou. De acordo com os dentistas entrevistados, muitas vezes
é necessário fazer outras intervenções no mesmo dente, e aí o desgaste só
piora.
A proposta é, no caso de
lesões mais profundas, retirar apenas a parte mais externa da cárie, mais
infectada, deixando a parte interna e fazendo a restauração logo depois. O
grupo da USP propõe ainda, em lesões mais superficiais, não retirar nada da
cárie e envolvê-la com um selante. A ideia é que a restauração ou o selante
vedem a cárie e impeçam sua progressão, criando uma barreira para a chegada
de nutrientes às bactérias.
Segundo Imparato,
diversos estudos atestam a vantagem da técnica, entre eles, uma revisão de
529 pesquisas publicada em 2006 que mostrou que a remoção parcial da cárie
não prejudica o dente e tem resultado semelhante ao da remoção total, com a
vantagem de preservar mais tecido. Além dos grupos de Imparato e de Maltz,
há grupos de pesquisa nessa área em universidades de Belo Horizonte e Ponta
Grossa.
O novo tratamento não é
consenso e enfrenta resistência por parte de alguns profissionais da área.
"Os dentistas se incomodam muito em deixar cárie. Eles aprenderam a agir da
forma convencional. Eu, durante muito tempo, ensinei isso também, mas a
ciência mostra novos caminhos. Estamos iniciando uma mudança de conceitos",
disse Imparato. Segundo ele, os próprios pacientes se assustam com a prática
e muitas vezes acham que o dentista que a aplica é um mau profissional.
Para Norberto Francisco
Lubiana, ex-presidente da ABO (Associação Brasileira de Odontologia), a
retirada do tecido cariado não é um problema. "Depende do tamanho da cárie e
do tipo de material restaurador, mas, se a lesão for substituída de uma
forma boa, não leva a nenhum risco", afirmou. Ele disse que o tratamento
preconizado pela odontologia minimamente invasiva é uma tendência e é
válido, mas afirma que ele ainda não é ensinado nas universidades. "Na
graduação, o comum é recomendar a remoção de todo o tecido.”
Fonte: Folha de São Paulo
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