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SAÚDE BUCAL
Edição 153 - 10/05/2010

 

Dentifrício com baixa concentração de flúor não combate fluorose, diz estudo

Com a promessa de evitar a fluorose, foram lançados no mercado, nos últimos anos, diversos dentifrícios com baixa concentração de flúor. Mas estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) questiona a eficiência do produto com base em constatações científicas.

O tema foi o foco da pesquisa de mestrado de Regiane Cristina do Amaral, defendida na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-Unicamp) sob orientação de Jaime Aparecido Cury, professor de Bioquímica da unidade. Durante a graduação, Regiane teve apoio da Fapesp para duas bolsas de iniciação científica. Com a colaboração de Lívia Tenuta, Altair Cury e Cinthia Tabchoury, todos professores da FOP, o estudo gerou artigo que será publicado na edição de agosto do European Journal Oral Sciences.

De acordo com Cury, para a realização do estudo 14 voluntários utilizaram creme dental com concentrações de flúor de 500 ou 1.100 partes por milhão e usaram dispositivos palatinos contendo esmalte decíduo, que foram submetidos à simulação de consumo de diferentes níveis de exposição a açúcar: de duas a oito vezes por dia. “Os resultados mostraram que, entre os voluntários que simulavam menor consumo de açúcar, o efeito dos dois tipos de cremes dentais era semelhante. Mas, conforme aumentava a exposição ao risco de cárie, o dentifrício de baixa concentração de flúor não era capaz de combater o efeito do açúcar e a cárie aumentavam linearmente. Além disso, para os dois tipos de cremes dentais o risco de ocorrência de fluorose dental seria semelhante, para crianças que ingerissem grande quantidade da pasta”, disse à Agência Fapesp.

Segundo Cury, o uso do flúor tem sido considerado indispensável para o controle da cárie, e muitos países conseguiram, com a fluoretação das águas de abastecimento público, reduzir os níveis de cárie de suas populações. Posteriormente, estudos começaram a relatar um declínio acentuado nos casos de cárie em países em que havia uso abrangente de cremes dentais com flúor. No Brasil, em setembro de 1988, o creme dental que dominava mais de 50% do mercado passou a ser fluoretado.

“De um dia para o outro, no Brasil, o uso do flúor passou a ser praticamente universalizado, com a fluoretação da água e dos cremes dentais. Houve um declínio acentuado da cárie. Só que, a partir de então, começou a haver uma preocupação com o aumento da fluorose”, disse.

A partir dessa constatação, na década de 1990 países como o Brasil, os Estados Unidos e a Irlanda, que utilizam água fluoretada, começaram a discutir como diminuir o problema da fluorose dental. Foram lançados cremes dentais de baixa concentração de flúor, que diminuíam a quantidade do elemento químico em cerca de 50%. Mas a fluorose, segundo Cury, não é decorrente do efeito tópico do flúor em contato com os dentes. Ela é causada pela presença sistêmica do flúor no organismo de crianças com dentes em formação. O problema, portanto, não é a concentração do flúor no creme dental, mas a ingestão de grandes quantidades de creme dental com flúor. Por isso, para diminuir o risco de fluorose, o estudo recomenda a utilização de pequenas quantidades dos cremes dentais convencionais. “Como a criança, até determinada faixa etária, ainda não é capaz de cuspir com perfeição, acaba engolindo muita pasta. Essa quantidade de flúor ingerida se soma à que está na água e esse excesso leva ao único efeito colateral sistêmico do uso de flúor, que é a fluorose dental. A solução não é diminuir a concentração de flúor do creme dental, mas utilizá-lo em menor quantidade nos dentes da criança – algo da dimensão de um grão de arroz”, orienta.

A pesquisa corroborou os dados de um estudo clínico realizado anteriormente, entre crianças com atividades de cárie, pelo grupo da FOP em São Luís (MA) e publicado na revista Caries Research. “O creme de baixa concentração não conseguiu controlar a cárie. Já o creme convencional não apenas controlou o problema, como levou a uma reversão das lesões de cárie existentes. Em um trabalho epidemiológico de campo como aquele, no entanto, não controlamos todas as variáveis. No novo estudo pudemos chegar aos mesmos resultados, mas sabendo que todos os voluntários da pesquisa tinham a mesma quantidade de bactérias sobre os dentes – o que variava era apenas o consumo de açúcar e a concentração de flúor na pasta”, explicou.

Segundo o pesquisador, atualmente alguns cirurgiões-dentistas e médicos, preocupados com a fluorose dental, chegam a recomendar cremes dentais que não contêm flúor. Segundo ele, trata-se de um equívoco: "Se a pasta de baixa concentração de flúor não é suficiente para controlar a cárie, o que esperar de uma pasta sem flúor?"

Fonte: Agência Fapesp, reportagem de Fábio de Castro

 

 

 

 

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