A Associação Brasileira de Cirurgiões-dentistas (ABCD) realiza evento na Av. Paulista para conscientizar a população sobre os riscos do câncer bucal (registro de 14,7 mil novos casos em 2018, dados do Inca, durante o dia 20 de Março (das 9 às 17h00). Fatores de risco aumentam com a inclusão do HPV (papilloma vírus) e somam-se aos casos de tabaco e etilismo, em todas as faixas etárias da população brasileira, matando cerca de 4 mil pessoas/ano (Inca). Nesta data, duas odontovans cedidas pelas APCD atenderão a população com cirurgiões-dentistas voluntários, sob a marquise da Fiesp.

O HPV, já considerado um dos principais causadores do câncer bucal, incide cada vez mais em pacientes com menos de 40 anos – mais de 1/3 nesta faixa etária. Entre os jovens com tumores na cavidade oral, a presença do vírus é de 32%. Há 20 anos, os registros de câncer bucal e garganta eram quase que exclusivamente entre pessoas acima dos 50 anos. Hoje, cada vez mais pessoas mais jovens (até os 40 anos) têm apresentado tumores malignos na boca. “Estas pessoas não são tabagistas, nem etilistas, mas têm HPV, vírus para o qual existe prevenção, a vacina. Por esta razão é importante lembrar o Dia Internacional da Saúde Bucal e conscientizar a população sobre os riscos de relações sexuais desprotegidas, em todas as idades, além de evitar vícios como o do cigarro e do álcool, que, associados, somatizam-se”, afirma o dr. Silvio Cecchetto, presidente da Associação Brasileira de Cirurgiões-dentistas, entidade que há 6 anos realiza o evento.

Papiloma vírus – Outro fator de risco tem sido considerado pelos pesquisadores: o papilloma vírus, popularmente conhecido como HPV, que tem a capacidade de desenvolver um câncer em menos tempo.

Com a queda do consumo do tabaco, esperava-se diminuir a incidência e a mortalidade do câncer, mas houve uma mudança de perfil. Está caindo o número de cânceres relacionados ao tabaco, devido às campanhas de controle, mas estão aumentando os casos relacionados ao HPV. Pesquisadores apontam que, até 2030, o número de casos relacionados ao vírus HPV deve superar os casos ligados ao tabaco nos Estados Unidos.

Um estudo atual, feito com orientação da bióloga e geneticista do A.C. Camargo e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sílvia Regina Rogatto, aponta que em casos de câncer de amídala a incidência do HPV cresceu de 25%, registrados há 20 anos, para 80%.

A estomatologista Fabiana Quaglio, assessora científica da ABCD, relata que em outra pesquisa, comandada por Luiz Paulo Kowalski, diretor do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital AC Camargo, os médicos detectaram que 32% dos casos de câncer de boca em jovens adultos eram em portadores do vírus. Em pacientes acima de 50 anos, a presença do vírus foi detectada em apenas 8%.

Também o estudo feito por Silvia Rogattto e sua equipe em pacientes do A.C. Camargo (SP) e no Hospital do Câncer de Barretos, descobriu que 80% dos pacientes da Capital são positivos para a presença do vírus enquanto os voluntários de Barretos correspondem a 15%.

Beijo na boca transmite – “A presença em grandes capitais é mais evidente, pois os hábitos costumam ser um pouco diferentes”, analisa Kowalski. Mas não se deve relacionar a transmissão exclusivamente à atividade sexual, apesar do sexo oral desprotegido ser um dos fatores principais de contaminação. O vírus pode ser transmitido por saliva, com um beijo na boca, por exemplo.

Estima-se que entre 25% e 50% das mulheres e 50% dos homens estejam infectados pelo HPV em todo mundo. Mas a maioria das infecções é transitória, sendo combatida espontaneamente pelo sistema imune. De acordo com pesquisas feitas entre homens norte-americanos, mexicanos e brasileiros, ao menos 2% da população adulta tem o vírus HPV e não apresenta nenhum sintoma.

Sinais – Existem papilomas que são como verrugas que podem aparecer na garganta ou na boca. Quem apresenta alguma ferida deve observar se ela está demorando a cicatrizar. Porém, mesmo quando o tumor maligno já se desenvolveu, pode não haver lesão visível. Em outros casos, pessoas que tiveram infecção podem não ter anticorpos elevados também. “A infecção pode ser silenciosa”, conta o médico.

No geral, cânceres de boca e garganta podem apresentar os seguintes sintomas: dor constante, nódulo, dificuldade para mastigar, rouquidão, dor na língua e mau hálito persistente. “Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor, pois o tratamento não é tão agressivo e as chances de recuperação são maiores. Uma lesão que durar mais de 15 dias é porque tem algo errado.”

Os tumores ligados ao HPV tem uma taxa de cura maior do que os associados a tabaco e ao álcool. “Eles respondem melhor ao tratamento, tanto com cirurgia, que geralmente é seguida de radioterapia, quanto na associação de radioterapia e quimioterapia.”

Prevenção – Para o oncologista, a vacinação é a melhor forma de se prevenir. Ela dá imunização fazendo as três doses e é fundamental que se inicie uma campanha para vacinar todo mundo, principalmente meninos e meninas antes de iniciarem a vida sexual. “Nós precisamos começar a trabalhar agora para ter efeito daqui a 15 ou 20 anos”, destaca o oncologista.

Outras formas de prevenção são: sexo seguro, se alimentar bem, não fumar, não beber, boa higiene oral e evitar traumatismos. “Um terço dos casos de câncer poderiam ser evitados se houvesse alimentação adequada e a prática de atividades físicas”, explica o nutricionista Fábio Gomes da Silva, da Unidade Técnica de Alimentação, Nutrição e Câncer do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Verduras e frutas, especialmente as cítricas, são protetoras. “A alimentação corresponde de 20 a 30% na prevenção.”

Cirurgião-dentista – O cirurgião-dentista é o profissional apto a detectar precocemente o câncer bucal. Além disso, é importante fazer o autoexame da boca com frequência e em caso de anormalidade, consultar o cirurgião-dentista que faz analise da mucosa, da bochecha, abaixo da língua, acima, e observa se há manchas avermelhadas e esbranquiçadas e/ou pequenos nódulos”, destaca a estomatologista da ABCD. No caso de lesões suspeitas o paciente é encaminhado para atendimento especializado.

Realização: Associação Brasileira de Cirurgiões-dentistas (ABCD), Associação Paulista de Cirurgiões-dentistas (APCD), Associação Brasileira da Indústria de Equipamentos Médicos, Odontológicos e de Laboratórios (Abimo), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Conselho Regional de Odontologia (CRO-SP).