Os dentes devem durar a vida inteira!!!

por | mar 26, 2019 | Artigos | 2 Comentários

As pessoas, num pensamento puramente empírico, acham que perder os dentes é algo NATURAL, INEVITÁVEL e CARACTERÍSTICO da idade, e que “não há o que fazer, pois vamos todos ficar desdentados (ou com dentaduras e “pontes”) com o passar dos anos.

Isto, cientificamente, não é verdade, pois os dentes só se perdem com motivos reais, concretos (mal cuidado bucal/limpeza ineficiente pelo paciente, dieta muito  causadora de restos alimentares pararem nos dentes, doença nas gengivas (periodontais), cáries não cuidadas, tratamentos endodônticos (“canal”) não realizados quando indicados, tratamentos dentários mal feitos pelos dentistas e acidentes (que são menos de 1% dos casos de exodontias (” extrações”).

Veja esta imagem abaixo:

Há 130 mil anos – Croácia

FOTO 1- Boca de   Neanderthal com idade aproximada de 130 mil anos(encontrada na Croácia)

Veja  como os dentes estão  com suas raízes inteiras e o desgaste na face que morde(Face oclusal) é porque a dieta deles era rica em raízes e alimentos muito consistentes.  Mas os dentes estão presentes após 130 mil anos!

Quer mais um exemplo? Veja esta imagem:

Fig 2.cranio com 11 mil anos(Brasil)

Há 11 mil anos- Brasil

Este é dos cranios encontrados no Vale do Ribeira(Cajati-SP) por volta do ano 2000 a quem chamaram de Luzio. Sua idade estimada é de 11 mil anos. Veja o estado e número de dentes ainda presentes e esta pessoa está envolvida até no povoamento da América do Sul,aspecto que não nos aprofundaremos aqui. Mas notem que os dentes estão presos nos ossos,mostrando que nos 2 locais sobrevivem muitos mil anos. Notar dentes “da frente e do fundo” presentes: muitos deles!

Há 3,2 milhões de anos

Se o primeiro  caso citado  tinha 130.000 anos, este acima 11 mil anos, que tal  este abaixo,de um hominídeo, que viveu antes do homo sapiens ?

Fig 3- Mandibula de  Australophitecus( na Etiópia)

Esta mandíbula com dentes e ossos de suporte presentes   tem 3,2 milhões de anos e é de um hominídeo Australopithecus afarensis, que foi encontrado na Etiópia em 1974,recebendo o nome de LUCY(e esta não foi queimada no incêncio de setembro 2018 do Museu Nacional do Rio!)

Espectrômetro de Massa por Acelerador Tandem é que permite datar a quantidade de Carbono 14 que ainda resta numa amostra de osso ou dente antigo. E não por menos, a coincidência de que geralmente os dentes são as estruturas do corpo humano  que mais permanecem íntegras depois de séculos e milênios e permitem esta datação pelo remanescente  deste radioisótopo numa técnica desenvolvida desde os anos 40 do século XX e que é o método  ainda mais usado atualmente. Foi decidido se colocar esta máquina nesta matéria para que você entenda de onde surgiram estas idades de dentes que contamos nas fotos anteriores.

 

Por que hoje não resistem?

Então, pensem conosco: se os dentes resistem por tantos anos (até 3,2 milhões de anos pelo que se achou até hoje) como, em nossas bocas modernas eles não resistem meros 60-70-80-90 anos?

O que causa esta degradação bucal e perda dos dentes que se observa na humanidade moderna?

Moderna, mas nem tanto… Já na idade média, por volta de 1600, o dramaturgo William Shakespeare, na peça AS YOU LIKE IT, na última cena dizia:

ULTIMA CENA DE TODAS, QUE FINALIZA SUA ESTRANHA VIDA:

“É SUA SEGUNDA INFÃNCIA E COM UM CONSUMADO ESQUECIMENTO

 E SEM DENTES, SEM OLHOS, SEM GOSTO, SEM TUDO “mostrando que já naquela época era comum o idoso ser considerado sem dentes dentre outros aspectos de sua decrepitude.

Mas como tudo começou?

Ano 711, na Península Ibérica: surge o vilão

Provavelmente começou por volta do ano de 711, na Península Ibérica, quando os muçulmanos trouxeram a cana de açúcar (e por decorrência o açúcar) para o Ocidente (leia o livro citado com  * ao fim do artigo).

A introdução deste alimento, altamente cariogênico numa época que nada se sabia de prevenção bucal, começou a criar enormes destruições nos dentes dos europeus que acabaram por refiná-lo(como conhecemos hoje, para ficar mais fácil de usá-lo em diversos  alimentos) e assim potencializar sua capacidade destrutiva da superfície dentária.

Lembramos que crânios muito mais antigos podem ter perdido um ou outro dente ,mas nunca a degradação vista desde a idade média nas bocas das pessoas.

(Percebam que até a bruxa dos doces tem cáries nos dentes !!)

Era comum,naqueles tempos,  se extraírem dentes sem qualquer anestesia(não havia sido criada ainda, só por volta de 1853) nas praças públicas feitas por barbeiros ou pessoas “especializadas” nisto….. Não existiam restaurações, altas rotações. Anestesias ou próteses e quando um dente doía ,só restava sua avulsão(e/ou extração).

E as bocas iam se mutilando, como vemos abaixo:

Ao mesmo tempo e com o passar dos séculos, dietas mais e mais cariogênicas, de produtos cada vez trabalhados  para alimentar  as populações maiores  das cidades que cresciam (e precisavam durar mais dias, logo com mais conservantes e fixadores)  foram levando  aos alimentos a se tornarem mais macios, para ficarem mais ao “gosto popular”. Quanto mais macios eles eram, mais se acumulavam restos deles  nos dentes e hoje sabemos(na verdade desde 1950 nos EUA e Europa)  que esta comida parada nos dentes e gengivas é a grande iniciadora das cáries(como vemos na foto acima) e dos problemas de gengiva( que verão na próxima foto).

Então não  existia a Odontologia para cuidar dos dentes(só por volta de 1840), os alimentos  iam cada vez parando nos dentes  e assim eles foram se perdendo ao longo dos séculos, por isto foi criada a ideia que “”dentes vão se perder ao longo da vida e vamos morrer sem nenhum“”, mas isto foi uma percepção popularesca, não algo científico/comprovado.

Veja os dentes de seus filhos e netos, eles parecem muito melhores que  os dentes do seu pai ou seus avós!

Mas os dentes são iguais interna e externamente  há milhões de anos, quando nossa espécie foi criada. Os crânios que achamos deles têm muitos dentes e poucos elementos faltando. Mas e quando encontrarem nossos pais e avós daqui  a milhares de anos, o que será que vão pensar dos bocas deles? Que eram de uma subespécie, que seus dentes não duraram em suas bocas? Ou os dentes de nossos antecessores diretos eram piores que os de milhões de anos atrás?

560 mil anos atrás e hoje

Olhe este dente de 560.000 anos atrás. Ele parece diferente dos teus? Foi encontrado numa caverna na França há poucos anos atrás).

Olhe,abaixo, este dente recém-extraído no século XXI. Ele parece diferente, estruturalmente, do que o dente da foto acima?

Você viu  mais acima que o crânio de Luzio (de 11.000 anos)  tem   muito osso que segura os dentes nas duas arcadas?

Então se os dentes e ossos maxilares  não mudaram estruturalmente, o que é que  tem esta boca abaixo de diferente?

Fig 4- Estado da boca de um idoso em internação hospitalar.(2012)

“Massa branca”, uma das vilãs

Dentes, quebrados, cariados,ausentes num idoso “jovem” de 72 anos. Mas agora  além do  açucar,dos alimentos e da falta da Odontologia no passado, o que acontece com este idoso, em sua boca?

Vejam a enorme massa branca ao redor de todos os dentes(tanto nos ” inteiros” como nos quebrados da frente. Ela começa dentro da gengiva e vem até a parte central dos dentes.

Isto são restos enormes de alimentos que por não serem removidos a cada refeição ( na verdade aumentam de volume a cada refeição)  comprometem os dentes com cáries e as gengivas que estão muito vermelhas, quando deveriam ser rosa claro se  saudáveis estivessem. Elas sangram só de um leve toque nelas,o que mostra enorme inflamação,o que também é anormal.

Sem contar do hálito deste idoso que era o verdadeiro BTL(Bafo de Tigre Louco -como dizia o querido Dr. Reynaldo Todescan) que devia incomodar muito até a ele mesmo(imagine com  quem ia falar com ele!).  Mas volte nas fotos ancestrais e veja se você  vê restos calcificados de alimentos nos dentes? Eles não existem  por conta da dieta deles e por isto estes de ntes duram até hoje!

 

Não existe comida inocente

Então para que tenhamos um boca assim saudável, nos dias de hoje

precisamos seguir removendo muito bem os restos de comida que param a cada refeição(seja o café da manhã, seja um biscoitinho com cafezinho, seja mastigando salgadinhos industrializados e refrigerantes mexendo no computador o dia todo)…NÂO existem comidas “inocentes” e que não vão fazer mal.Tudo parado nos dentes, não para só do lado de fora

e do lado de dentro, e SIM para ENTRE os dentes. É esta comida entre os dentes o dia todo que causa as cáries e os problemas de gengiva que farão você perder os dentes com o passar dos anos.

Mas a culpa não é de seus dentes,como você tem lido desde o início e sim do que fica parado nos dentes que se juntam às bactérias aumentando de número e produzindo um ácido que ataca os dentes e como não se limpa entre os dentes (com o fio dental, que muitos só usam ” de vez em quando”), na prática isto quer dizer NUNCA, e as comidas modernas TEM de ser removidas entre os dentes (COM CERTEZA uma vez por DIA), as cáries vão aumentando,chegam ao centro do dente, geram os tratamentos de canal,coroas, e tudo feito, sem o cuidado bucal adequado – isto quer dizer escovação correta COM USO DE FIO DENTAL diário -leva à perda dos dentes.

E ntão nós, as pessoas modernas, por conta do que comemos e FATALME NTE para nossos dentes, temos que escovar os dentes, tanto os da frente,como os do fundo, desde a gengiva até a ponta dos dentes, de 2 em 2 dentes, por vez, e depois usar o fio dental,pois nenhuma escova de dentes limpa ENTRE os dentes( é só propaganda delas,mas nenhuma escova de dentes entra nesta importantíssima região interdental) e sempre que comermos algo fora das refeições lembrar que temos  de limpar os dentes, para que os restos não se fixem nos neles e entre eles.

Mas temos muito a continuar falando destes assuntos!Aguardem!

Compartilhem estas informações com todos de se u convívio.

Podem parecer informações muito genéricas, mas depois de 43 anos de trabalho, continuo vendo e sendo perguntado sobre muitos destes aspectos.

*Leitura especifica sobre malefícios do açúcar na população ocidental: Sugar Blues ,de William Dufty, São Paulo,Edit Ground, 1990.

Fernando Luiz Brunetti Montenegro

Fernando Luiz Brunetti Montenegro

Mestre e Doutor pela FOUSP

Ministrador Cursos Especialização em Odontogeriatria

Responsável por Odontogeriatria em 3 Sites Científicos gratuitos.

Currículo Lattes disponível em: http://lattes.cnpq.br/5048935993581678

E-Mail: fbrunetti@terra.com.br