O bem-estar humano depende de vários fatores, entre eles a prevenção e o controle de doenças. O uso do tabaco ocupa o 2º- lugar no ranking de drogas mais experimentadas no Brasil na idade média dos 16 anos, tanto para meninos como para meninas. Apenas estes números seriam fatores primordiais para a conscientização dos males que têm início e porta de entrada a boca, com registro de 11.200 casos da doença para homens e 3.500 para mulheres no biênio 2018-2019. A expectativa de mortalidade é de quatro mil brasileiros por ano em consequência de câncer na cavidade oral. Para pensar: a Organização das Nações Unidas (ONU) estimava para 2018 o total de 9,6 milhões de mortes por câncer em todo o mundo e, provocada pelo tabaco, a perda de sete mil vidas. Nessa conta,1,2 milhão de mortes no mundo resultam do fumo passivo. No Brasil, 900 mil pessoas perdem a vida pelo fumo passivo (Opas/OMS-Tabaco). Nós, cirurgiões-dentistas, não podemos ignorar este flagelo. A Associação Brasileira de Cirurgiões-Dentistas (ABCD) conclama os profissionais da Odontologia a compartilharem estas informações e, apostando na prevenção, ajudar a salvar vidas.

Dia 25 de Outubro, Dia do Cirurgião-Dentista, a ABCD fará a sua 100ª Ação Sorrindo para Vida, parte deste esforço nacional para manter a saúde da população brasileira. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), os danos do tabaco aos usuários são tumores nos lábios, na cavidade nasal e tireóide que, agrupados como cânceres de boca e pescoço, representam hoje a segunda maior incidência de mortes em homens brasileiros. Cabeça e pescoço têm alto índice de mortalidade no Brasil, especialmente porque os pacientes já chegam para tratamento com a doença em estágios avançados. A ABCD e seu parceiros já realizaram 100 campanhas de prevenção de câncer bucal, com o trabalho voluntário de 700 cirurgiões-dentistas, identificando dois mil lesões cancerígenas, encaminhadas para exame aprofundado e tratamento. Isto quer dizer que conseguimos, sim, salvar vidas! E é o nosso valoroso cirurgião-dentista o profissional capacitado para diagnosticar precocemente na boca os casos suspeitos e iniciais do câncer oral. A prevenção continua sendo a única maneira de salvar vidas, porque o câncer bucal mata se não diagnosticado e tratado a tempo. E a informação faz parte importante da prevenção.

Reforço: o maior desafio que temos a enfrentar é o diagnóstico e a prevenção, e a prevenção passa pela mudança de hábitos nocivos (tabagismo e alcoolismo), que são comprovadamente fatores de risco para estes tipos de tumores. Outro risco é a infecção pelo HPV e a prática de sexo oral sem uso de preservativos. Aí entra em ação outro perfil do cirurgião-dentista, o profissional com capacitação técnica e científica, mas também sensível e humanizado para lidar com a dor e o medo do paciente que vem em busca de orientação. No Brasil somos mais de 340 mil de cirurgiões-dentistas (CFO, julho,19), imaginem a força de conscientização e prevenção que temos! Podemos fazer diferença, evitar a doença e transformar dor, sofrimento e morte em mais saúde e sorrisos saudáveis.

Menos 429 mil mortes – A boa notícia é que, considerando o período de 1989 a 2010, a queda percentual de fumantes (um dos principais riscos para o câncer bucal) no Brasil foi de 46%, como consequência da implementação das Políticas de Controle do Tabagismo, estimando-se que um total de cerca de 429.000 mortes foram evitadas neste período. O quadro comparativo (PLOS Medicine, 2012) apresenta dados correlacionados à queda da prevalência de fumantes homens e mulheres (18 anos ou mais) com as ações de controle do tabaco.

A diminuição da taxa de mortalidade pelo cigarro resulta da menor prevalência do tabagismo na população feminina. E mais um tento: aos 12 anos, registrou-se uma redução de 40% de fumantes no Brasil, passando de 15,5% em 2006 para 9% em 2018. Uma vitória para a juventude brasileira e para as próximas gerações.

Brasil é o primeiro país a alcançar as medidas de combate do tabaco da OMS

O governo brasileiro anunciou em junho deste ano, no Rio de Janeiro, nas palavras do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante o lançamento do relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS): “Queremos ser o primeiro país livre de tabaco”. Os primeiros resultados dessa decisão foram aprovadas pelo reconhecimento do Brasil e da Turquia por terem implementado no mais alto nível as seis estratégias para o controle do tabaco.

Referência internacional no combate ao tabagismo, o País implementou as melhores práticas, que culminaram na expressiva queda de consumo do tabaco no Brasil, alcançando redução de 40% de fumantes.

MPOWER – Temos que comemorar e valorizar os esforços das autoridades de saúde, de entidades e de nossos pesquisadores: agora, o Brasil é um dos primeiros países do mundo a alcançar o mais alto nível das seis medidas* da MPOWER de controle do tabaco. Isso significa ter conseguido implementar as melhores práticas no cumprimento das estratégias preconizadas pela OMS.  Divulgado em julho, também no Rio de Janeiro, durante o lançamento do Relatório da OMS sobre a Epidemia Mundial do Tabaco, o resultado corrobora a posição do País como referência internacional no combate ao tabagismo. Esta sétima edição do informe revelou que, dentre os 171 países que aderiram às medidas globais da OMS, apenas o Brasil se juntou à Turquia, como as duas únicas nações do mundo a efetivarem com sucesso ações governamentais.

(*) Seis medidas da MPOWER

1- Monitorar o uso de tabaco e políticas de prevenção

2- Proteger a população contra a fumaça do tabaco

3- Oferecer ajuda para cessação do fumo

4- Advertir sobre os perigos do tabaco

5- Fazer cumprir as proibições sobrepublicidade,

     promoção e patrocínio

6- Aumentar os impostos sobre o tabaco

 

Mais sobre o assunto em:

*https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_docman&view=download&alias=375-mpower-um-plano-para-reverter-a-epidemia-tabagismo-5&category_slug=tabagismo-132&Itemid=965

1, 6 milhão cessou o fumo – Entre 2005 e 2016 quase 1,6 milhão de brasileiros realizou o tratamento de cessação do tabaco na rede pública de saúde, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). No Brasil, a redução do consumo do tabaco é resultado de uma série de ações do governo federal. No que diz respeito ao oferecimento de ajuda para a cessação do fumo – que é o foco do Sétimo Relatório -, o Ministério da Saúde iniciou seus esforços e compromissos na década de 1990, quando o Inca capacitou os profissionais dos estados e dos municípios para estarem aptos a realizar o tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS).  O tratamento do tabagismo é oferecido em mais de quatro mil unidades de saúde, a maioria (91%) na Atenção Primária, a porta de entrada do SUS. O número 136 do Disque Saúde, impresso obrigatoriamente nos maços de cigarros, serve para a população tirar dúvidas.

E-cigar veio para confundir – Por outro lado, os e-cigars (cigarros eletrônicos, vapers) vieram para confundir e trazer mais riscos à saúde. Segundo evidências científicas, estes produtos trazem o perigo de aumento da iniciação entre os não fumantes, presença de substâncias cancerígenas no vapor, evidências de danos celulares no DNA, aumento de chance de infarto agudo do miocárdio e asma. E seu uso está disseminado, principalmente entre jovens.

A indústria de tabaco tem se valido do conceito de redução de danos, como os cigarros light, que se mostram equivalentes ou mais graves que os cigarros comuns, e agora dos cigarros eletrônicos.

No entanto, o Inca lançou o manifesto Brasil Livre do Tabaco, defendendo a manutenção de resolução da Anvisa de 7 de agosto último, que proíbe a comercialização de cigarros eletrônicos em todo o País (em 7/8/19).

Mais informações em:

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_docman&view=download&alias=375-mpower-um-plano-para-reverter-a-epidemia-tabagismo-5&category_slug=tabagismo-132&Itemid=965

Tabagismo passivo – É um perigo oculto que se relaciona ao desenvolvimento de doenças e agravos da saúde mesmo em quem não fuma, como grávidas, bebês, crianças e idosos, mas convive com fumantes, a mesma influência exercida pelos cigarros eletrônicos e o vaper.

País livre de fumo – Para proteger a população contra a fumaça do tabaco, a legislação antifumo foi aperfeiçoada ao longo dos anos, para se alinhar à Convenção-Quadro de Controle do Tabaco (CQCT), da Organização Mundial de Saúde. Essa medida levou o Brasil a se tornar o primeiro país, com uma população acima de 100 milhões, 100% livre de fumo. Vale enaltecer a Lei 12.546/2011, que, além de proibir o ato de fumar em locais fechados, públicos e privados, impediu, inclusive, a possibilidade da existência de fumódromos, entre outras medidas e advertências.

Publicidade e pesquisa – A legislação brasileira também foi rígida quanto à publicidade do tabaco, que, no ano 2000, foi proibida nos meios de comunicação de massa, como TV, rádio, revistas, jornais e outdoors. O patrocínio de marcas de cigarro foi vetado em eventos culturais e esportivos, além da proibição total de pontos de venda.

Quanto ao monitoramento do uso de tabaco, o Ministério da Saúde realiza o Vigitel desde 2006, pesquisa anual sobre fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, que traz informações sobre a estimativa de consumo, aí incluído o uso do tabaco entre jovens. Em 2008, o Brasil foi um dos primeiros países a completar a coleta de informações para o inquérito mundial Global Adult Tobacco Survey (GATS), cujas perguntas estão inseridas na Pesquisa Nacional de Saúde, com coleta de dados até o início neste ano.

As pesquisas do Ministério da Saúde/Sistema de Vigilância de Fatores de Risco (Vigitel) também revelaram que em 2018 9,3% dos brasileiros afirmaram ter o hábito de fumar. Em 2016, a primeira pesquisa indicou ser de 40% a porcentagem de brasileiros que consumiam tabaco, o que reforça a tendência mundial de queda constante do hábito de fumar.

Em meio a tantas pesquisas, medidas e ações, fica a certeza de que dando as mãos – entidades de classe, governos, profissionais de saúde, a comunicação e os organismos internacionais – seremos capazes de alcançar o desafio da troca do tabaco pela saúde. Entre nesta luta conosco.