Não, calma, a década não acabou. Compreendo a ansiedade de muitos que chegaram “correndo” a 2020 para comemorar o início de, segundo creem, uma nova década. Mas a segunda década do século XXI só acabará mesmo à meia-noite do próximo dia 31 de dezembro. A terceira década do século XXI será aberta em 1° de janeiro de 2021. Não é assim porque eu quero, vou logo esclarecendo. É assim porque são os “anos-zero” que encerram as décadas, os séculos, os milênios. Se duvidar, pense na sua idade. Seu primeiro ano de vida foi concluído no seu primeiro aniversário. E sua primeira década de existência se encerrou apenas quando você iniciou sua segunda década, abrindo o ciclo de dias que se encerrou ao completar 11 anos. Assim é a contagem do tempo. Mas, tudo bem: você pode se referir ao período aberto no último 1° de janeiro como “os Anos 2020”. Essa expressão contém todos os dias desse período que irá até 31 de dezembro de 2029.

Mas, e o “Sorriso do Ano 2019”?

E, caro leitor cara leitora, que ano, hein?!

O jornalista e escritor Laurentino Gomes, paranaense de Maringá, notabilizou-se por seus livros cujos títulos são simplesmente os anos de acontecimentos que marcaram a história do Brasil, como “1808” (um bestseller que vendeu mais de meio milhão de exemplares), “1822” e “1889”. Talvez Gomes ainda esteja vivo quando, daqui a algum tempo, 2019 seja considerado um ano tão marcante para a nação brasileira quanto esses três do século XIX, que viraram livros. Aliás, voltando ao primeiro parágrafo, reitero, a propósito, que 1900 não foi “o primeiro ano do século XX” como às vezes lemos em textos descuidados, mas apenas o último ano do século XIX, que marcou tão decisivamente nossa história. E, claro, o ano 2000 não “abriu o século XXI”; apenas fechou o século XX.

Encerrada esta digressão sobre o tempo e sua contagem, fixemo-nos em 2019. Uma das coisas boas de 2019 foi justamente o lançamento de “Escravidão”, de Laurentino Gomes, o primeiro de uma prometida trilogia sobre o tema. Outra coisa boa foi o fim do horário de verão. Sei que tem gente que gosta desse avança e recua o ponteiro do relógio todos os anos. Eu não gosto. Conversei sobre isso com um amigo que gosta. Disse-lhe que até onde minha memória alcançava, o fim do horário de verão era a única notícia boa com origem no governo federal, no primeiro ano da gestão, e que eu falaria disso neste artigo sobre o Prêmio. Desconfiado ele perguntou se eu elogiaria Bolsonaro, pois sempre há o risco de algum desafeto tirar o assunto do contexto e sair por aí dizendo que eu elogiei o governo Bolsonaro. Rimos da situação inusitada. Fica, porém, o registro de um acerto do governo, em episódio em que a economia ficou subordinada ao bem-estar. A cronobiologia agradece.

Escrevi “que ano!”, pois 2019 marcou a história da nossa República, com tantos e ferozes ataques ao Estado Democrático de Direito, que partiram de vários pontos, mas, sobretudo, do governo federal. Nunca antes na história deste país (ôps!…) tantos ministros de Estado, e até mesmo o presidente da República, protagonizaram cenas que deveríamos esquecer e das quais poderíamos ter sido poupados. O ano me inquietou tanto que não tive coragem, (isso mesmo, admito, faltou-me coragem) de consultar amigos e amigas sobre o Sorriso de sua preferência. Quis poupá-las(os) desse encargo. Ainda assim recebi, espontaneamente, sugestões de um ou outro amigo(a), aos quais sou imensamente grato. Mas desses dissabores já se falou e escreveu bastante e não vou dar curso, aqui, à crônica desses despautérios.

Afinal, quem ainda suporta ler que o titular da Educação comete erros ortográficos infantis e confunde Kafka com kafta? Sobre alimentos, prefiro registrar que em 2019 cientistas brasileiros ganharam reconhecimento mundial pela classificação NOVA, adotada pelo Guia Alimentar para População Brasileira. O novo sistema, desenvolvido ao longo desta segunda década do século XXI, coloca em segundo plano a consagrada “pirâmide alimentar” e propõe que os grupos de alimentos sejam classificados segundo o grau de processamento e tratamento a que são submetidos. NOVA ganhou o mundo e bem que o Prêmio Meu Sorriso do Ano poderia ser dado para os pesquisadores Carlos Monteiro, Renata Levy Bertazzi ou Patrícia Jaime, que integram a equipe proponente do novo sistema de classificação.

Por que dar destaque ao diretor da Funarte em seu delírio sobre o rock como caminho ao “abortismo” e ao satanismo ou às sandices que ligam os Beatles ao “marxismo cultural”? Melhor registrar que 2019 foi o ano do lançamento do belo documentário “O Barato de Iacanga”, de Thiago Mattar. O filme mostra os bastidores do festival de música brasileira conhecido como Festival de Águas Claras que, nos conturbados anos 1970 e 1980, trouxe algum oxigênio à geração asfixiada cultural e politicamente pela ditadura civil-militar que teria fim apenas com a Constituição de 1988.

No ano em que o ministro da Economia deu um pito nos pobres, acusando-os de não saberem poupar (“Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo.”), o que dispensa comentários, soubemos pelo ministro da Saúde, em seu discurso de posse, que o orçamento da Pasta é “muito grande”. Foi de perder o fôlego. Mas foi alentador constatar o vigor dos movimentos sociais em defesa do SUS, e a manutenção, apesar das enormes dificuldades, da rede de conselhos de saúde por todo o país. Foi esta organização a partir dos conselhos locais de saúde, em 4.612 municípios, que possibilitou a realização em 2019 da 16ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), cuja etapa nacional levou mais de 5 mil delegados a Brasília, que se reuniram de 4 a 7 de agosto, para decidir sobre as 31 diretrizes e 328 propostas que integram o Relatório Final do evento e que foram elaboradas por 22.839 pessoas eleitas em suas comunidades.

Apesar dos tropeços, a frágil democracia brasileira segue seu rumo. Uma “Democracia em Vertigem”, conforme Petra Costa, que lançou em 2019 seu filme indicado ao Oscar de 2020, de melhor documentário. Um amigo escreveu que “apesar da democracia em vertigem, o sorriso de Petra está em alta ao escancarar ao mundo o golpe que fez o Brasil voltar a tempos que não imaginávamos possível. Tempos de autoritarismo, de pobreza moral e material, de fortalecimento da Casa Grande a opressão da Senzala. Mas a arte de Petra, abominada pelos fascistas de plantão, nos traz esperança de reforçar a necessidade de justiça social e animação na luta por um mundo inspirado na apropriação coletiva e sem distinção entre classes sociais. Que seu sorriso nos ilumine em 2020 e brilhe no tapete, não por acaso, “vermelho” do Oscar. Bem que aquele sorriso da cineasta mineira poderia receber o Meu Sorriso do Ano.

Mas 2019 foi o ano em que, desde a consolidação da democracia, mais restrições à liberdade foram registradas no país, a começar por ataques que partiram do Palácio do Planalto, onde o titular da Casa abriu espaços em seu governo a filonazistas ou nazistas enrustidos. Lilia Schwarcz nos alertou para o fato de que o ministro da Educação parafraseou Adolf Hitler, citando em discurso trechos de Mein Kampf (“Minha Vida”), livro publicado em 1933. Foram dezenas os episódios que vieram a público revelando abusos de autoridades praticados por distintas autoridades da República, sendo as restrições à liberdade seu ponto de convergência. Grave.

É por esta razão que o Prêmio Meu Sorriso do Ano de 2019 vai para uma brasileirinha de um ano e nove meses, residente em Goiana, na região metropolitana de Recife. Peço ao caro leitor, cara leitora, que compreendam a inusitada situação. Foi difícil para mim tomar essa decisão. Afinal, desde 2002, quando realizamos a primeira edição, nunca o Prêmio foi dado a alguém não identificado. Neste caso de 2019, porém, é imperioso que seja assim, pois se trata de vencedora menor de idade e a legislação brasileira protege, corretamente, essas pessoas. Também a mãe e o pai da ganhadora do Prêmio Meu Sorriso do Ano 2019 não foram identificados no noticiário ao qual tive acesso. Um deles bem que poderia ser o ganhador do Prêmio. A verdade é que em 2019 nenhuma pessoa me sensibilizou mais do que a menina envolvida no fato que, brevemente passo a contar.

Uma panela de pressão, caro leitor, cara leitora, está presente em praticamente todos os lares brasileiros, mesmo os modestíssimos. Pois num desses lares, a vencedora do Meu Sorriso do Ano 2019, faltando-lhe algum brinquedo, digamos, apropriado à idade, brincava no chão com uma panela de pressão, pois era o de que dispunha para dar vazão à sua imaginação. Quis o destino, que por vezes é dado a essas estripulias, que a pequena ficasse presa dentro da panela. Tentou, sem sucesso, libertar-se por conta própria. Também a mãe tentou retirá-la, mas igualmente fracassou. Pediu socorro ao Corpo de Bombeiros, cujos valentes e jeitosos profissionais conseguiram retirá-la do utensílio. Felizmente, saiu ilesa. Nenhum corte, arranhão ou ferimento. Consta que o resgate da menina durou cerca de uma hora, tendo sido utilizada “ferramenta de corte de ferro” para abrir a panela e retirar a garota. Embora sem ferimentos, a menina saiu da panela assustada. A notícia com detalhes do episódio está no site do UOL e pode ser lida clicando aqui. De acordo com o Corpo de Bombeiros, a genitora prometeu que a criança “brincaria com outra coisa”, daqui pra frente.

O sorriso da brasileirinha de nome ignorado de Pernambuco, liberta da panela que a aprisionou por algumas horas, é o Sorriso do Ano 2019, pois não há metáfora mais apropriada do que este episódio para descrever a sensação de falta de liberdade a que estivemos submetidos no Brasil em 2019.