Dizem que ir ao dentista pode engravidar!!! Assustador, não acha? Alega-se que se o dentista receitar antibiótico e a paciente estiver fazendo uso de anticoncepcional, o antibiótico vai diminuir a eficácia do anticoncepcional e a referida paciente pode ter uma gravidez indesejada.

Além disso, se você perguntar para os mais informados, a explicação científica estará na ponta da língua. “Os antibióticos matam não só as bactérias causadoras de doença, mas também destroem as bactérias benéficas do intestino, responsáveis pela reativação do estrogênio. Sem o trabalho delas, o estrogênio simplesmente é eliminado do corpo e a mulher pode ficar desprotegida e engravidar”.

Consequentemente, se um dentista receitar um antibiótico para uma paciente que usa anticoncepcional, sem informar sobre a suposta interação e ela engravidar, esse dentista pode ser condenado a pagar pensão alimentícia para a criança até os 18 anos de idade!!!

Entretanto, TUDO ISSO NÃO PASSA DE UM GRANDE ENGANO!!! O problema é que um mentira contada mil vezes se torna verdade.

Sério, Professor Ricardo? E quais são seus argumentos e fontes científicas?

Primeiro, não existe um único estudo científico, PROVANDO que a morte das bactérias do intestino humano,pelos antibióticos usados na Odontologia, causa a eliminação do estrogênio do corpo e consequentemente a falha do método contraceptivo. Pode procurar à vontade. Eu desafio você!!

Normalmente a pílula possui uma taxa de falha em torno de 1% (1 gravidez por 100 mulheres por ano de uso). Porém, se você é daquelas que esquece uma pílula de vez em quando, essa taxa sobe para 9%. Portanto, a causa mais comum de falha contraceptiva é o uso incorreto.

Por outro lado, se uma mulher tiver diarreia ou vômito, é possível que o contraceptivo seja menos eficaz, e por isso essa mulher deve usar medidas contraceptivas adicionais.

Segundo, eu procurei um advogado e ele me disse o seguinte: “Não existe embasamento jurídico para condenar um dentista a 18 anos de pensão alimentícia e muito menos algum caso registrado”.

Para ajudar, achei um relato de caso na Califórnia em 1996. “Uma mulher e seu marido processaram seu ginecologista e o dentista por uma gravidez indesejada. A mulher alegou ter engravidado depois que o ginecologista prescreveu contraceptivos orais e o dentista prescreveu penicilina para cirurgia oral, mas ninguém alertou para uma possível interação entre os medicamentos, tornando a contracepção menos eficaz” (LACASA, 1996).

O tribunal decidiu a favor do médico e do dentista pelas seguintes razões:

  1. Não há evidência científica de interação entre o antibiótico e o contraceptivo. Os artigos apresentados pela acusação eram simplesmente relatos e não estudos científicos.
  2. Os advogados não conseguiram mostrar estudos científicos que documentavam uma interação significativa ou que ela engravidou enquanto tomava penicilina.
  3. Segundo as leis da Califórnia, o dentista e o médico não são obrigados a discutirem os riscos de incidência muito baixa. A taxa de falha teria que exceder o dobro da taxa de falha esperada para um profissional ser solicitado a discutir o risco potencial. Ou seja, se a taxa de falha do anticoncepcional em conjunto com o antibiótico fosse mais de 18% (taxa falha esperada de 9%, como citado acima).
  4. Os advogados também argumentaram que o rótulo da embalagem do contraceptivo oral provava que ocorre uma interação entre antibióticos e contraceptivos orais. O tribunal decidiu, no entanto, que o rótulo simplesmente alerta que essa interação é possível. “Além disso, a inclusão de um aviso padrão na bula de um medicamento pode refletir apenas uma resposta excessivamente cautelosa a uma possível responsabilidade, não uma prova científica de causa.

Felizmente para nós dentistas e nossos pacientes, os estudos científicos dos antibióticos usados na odontologia falharam em mostrar qualquer diminuição na eficácia dos contraceptivos orais com antibióticos. O único antibiótico comprovado cientificamente é a rifampicina, que normalmente não é usada em odontologia. Portanto, não é necessário avisar nossas pacientes sobre uma possível interação entre antibióticos usados em odontologia e contraceptivos orais.

Em contraste, vamos pensar a seguinte situação. Você alerta sua paciente, a qual é muito receosa e por medo de engravidar, não toma o antibiótico e acaba contraindo uma infecção pós-operatória. Pensando assim, não seria bom alertar a paciente sobre uma interação não comprovada cientificamente.

Além de não haver provas científicas desta interação, existem vários trabalhos demonstrando que os níveis sanguíneos dos contraceptivos orais não diminuem com o uso concomitante dos mais variados antibióticos. Como já escrevi acima, o único antibiótico que realmente diminui a disponibilidade sanguínea do anticoncepcional é a rifampicina, antibiótico utilizado no tratamento da tuberculose.

Entre 1973 e 1984, houve mais de 300.000.000 de prescrições de antibióticos na Inglaterra. Porém, houve apenas 63 gestações na Inglaterra entre mulheres em uso de contraceptivos orais e antibióticos,durante um período semelhante (1968 a 1984). O fato do pequeno número (63) de mulheres grávidas sugere que não há interação entre os dois medicamentos, mas sim que elas podem ter sido parte da taxa de falha esperada dos contraceptivos orais(BACK, 1988).

Em 2010, a Organização Mundial da Saúde concluiu que não há evidências de que outros antibióticos, que não a rifampicina, interajam com a eficácia dos contraceptivos orais (WHO, 2010).

Portanto, segundo Taylor e Pemberton, ao prescrever antibióticos (com exceção da rifampicina) para pacientes em uso de contracepção hormonal combinada, a orientação atual é que agora não há necessidade de informar às pacientes que devem usar métodos contraceptivos adicionais enquanto tomam antibióticos (a menos que elas sofram de diarreia ou vômito) (TAYLOR, PEMBERTON, 2012).

Assim, eu posso concluir que se sua paciente engravidar tomando pílula e o antibiótico (exceto rifampicina) que você receitou, é muito provável que ela faça parte da taxa de falha do método, e você não será condenada(o) a pagar 18 anos de pensão.

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SERVIÇO:

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O vídeo que gravei sobre esse assunto está no IGTV do Instagram @escovaeacao ou no Youtube, https://youtu.be/oJgMjVpPTaA

Referências bibliográficas

BACK, D.J. EvaluationofCommitteeonSafetyof Medicines yellowcardreportson oral contraceptive-druginteractionswithanticonvulsantsandantibiotics. Br J ClinPharmac, 25:527-32, 1988.

LACASA, C. California courtdenieswrongfulbirthclaim. J Law MedEthics, 24(3):273-4, 1996.

TAYLOR, J.; PEMBERTON, M.N. Antibioticsand oral contraceptives: new considerationsfor dental practice. Br Dent J, 2012(10):481-3, 2012.

Available:https://www.nature.com/articles/sj.bdj.2012.414

World Health Organization. Medical EligibilityCriteria forContraceptive Use, 4th edition. 1-125, 2010.

 

Autor: Prof. Dr. Ricardo Sergio Couto de Almeida

Graduação em Odontologia pela Universidade Estadual de Londrina (02/2002)
Mestrado em Patologia Experimental pela Universidade Estadual de Londrina (08/2003)
Doutorado em Microbiologia pela Friedrich Schiller UniversitätJena, Alemanha (09/2008)
Pós-doutorado em Genética Molecular pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, USP (02/2012)
Professor Adjunto D da Universidade Estadual de Londrina