A R T I G O | Por Fernanda Dias

Muito se tem falado sobre o Covid 19 e temos à exaustão publicações sobre o tema Pandemia. Já sabemos de cor as medidas indicadas pelas nossas autoridades sanitárias e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que mostram a necessidade de medidas de higiene e isolamento social, explicadas detalhadamente.

Quero focar nesse artigo outro tipo de medida, tão importante quanto: os cuidados com a alma. Alma aqui entendida no sentido junguiano de psique, ou seja,a totalidade dos fenômenos psíquicos, portanto tratando  do mundo interior das nossas emoções, sentimentos, sensações vagas e obscuras.

Para ilustrar essa caminhada recorro a um autor muito querido: Joseph Campbell, (1904-1987) que entre suas numerosas publicações, tratou da Jornada do Herói, tema que aqui procuro desenvolver. Quem é esse herói? Somos todos nós, heróis e heroínas em nossa jornada rumo à grande obra que é cuidar o melhor possível da dádiva que recebemos que é nossa Vida. Trata-se de uma história simbólica,uma parábola para  o caminho de vida do ser humano, história contada e recontada ao longo dos tempos.

Podemos resumir a Jornada do Herói e da Heroína em três grandes momentos: a Partida, a Iniciação e o Retorno.

Na Partida acontece o chamado à aventura, que pode ser aceito ou não.  Se aceito temos a passagem pelo primeiro limiar, o ponto de entrada no desconhecido, em um “novo mundo” com suas leis e funcionamento misteriosos. Em cada portão de entrada há guardiões defendendo os limiares, para barrar a entrada de quem não for digno. Os limiares na psicologia profunda representam as auto-limitações que seguram nosso crescimento e progresso. Quando dizemos sim ao chamado há uma aceitação explicita da necessidade de passar por transformações, mudanças.

A Iniciação: Aqui temos a entrada no segundo limiar. É o caminho das provas, das tentações, onde o herói e a heroína correm o risco de se desviar e abandonar a jornada. Se eles persistem podem chegar à apoteose, a alcançar o objetivo da jornada. Qual é esse objetivo? Algumas vezes a aventura inicia-se sem a clareza do que deve ser conquistado, é a necessidade de mudança que impulsiona a ação. O objetivo pode ser a conquista de um tesouro, de um amor, de uma injustiça a ser reparada, realização de um sonho, uma mudança de vida, uma conquista espiritual.

O Retorno: O retorno ao cotidiano também pode trazer dificuldades,muitas vezes necessitando de auxilio para integrar a sabedoria adquirida na jornada e conseguir compartilhar com outras pessoas o que foi descoberto.

Relacionando com nosso momento atual iniciamos com reflexões sobre a Partida.

Existem dois tipos de Partida: a intencional, em que buscamos conscientemente nosso objetivo e a involuntária, quando nos vemos no meio das situações desconhecidas, como a que estamos vivenciando. Estávamos em uma situação de aparente normalidade e fomos trazidos à dura realidade do Covid 19. E agora: podemos recusar o chamado à consciência negando a realidade, minimizando os efeitos da pandemia, ou podemos desenvolver recursos internos para enfrenta-la.

Como a primeira opção, ade negação  seria difícil manter pois a realidade através da mídia e das informações a confronta dia a dia, adotemos a segunda ,  aceitando  passar por transformações necessárias para enfrentar os obstáculos e perigos que essa pandemia representa, com o objetivo de superar essa fase. Transformações que envolvem mudar a rotina de vida, afastar-se presencialmente dos entes queridos, preocupar-se obsessivamente com a higiene,  e provavelmente a tarefa mais árdua: aceitar nossa fragilidade e vulnerabilidade como seres humanos! Esta percepção antes experimentada à distância e com menos intensidade hoje se instala concretamente: a finitude existe e é necessário saber lidar com ela. Só aceitando nossa fragilidade podemos também encontrar a nossa força.

E quais seriam nossas possibilidades de lidar coma angustia ,com  a ansiedade por vivenciar  uma situação tão extrema? Felizmente podemos contar com o auxílio de vários recursos: os ligados ao desenvolvimento da força interior que todos temos, procurando auxílio em terapias psicológicas, na meditação, no relaxamento. A tecnologia também pode ser uma grande aliada:nos permite entrar em contato com as pessoas queridas, familiares e amigos, e como já disse alguém, isolados, mas não sozinhos! Podemos também empreender viagens por países nunca visitados, por museus (virtualmente é claro!), assistir filmes, séries, documentários,  de acordo com nossos interesses.  Para quem gosta de ler que tal aproveitar a oportunidade e diminuir aquela pilha de “um dia vou ler” e começar a empreitada? O livro de Campbell, que nos orienta nessa jornada poderia ser uma boa opção (trata-se de O herói de mil faces, de 2007).  Outro aspecto importante e necessário é poder  expressar suas emoções através de atividades variadas: escrever, desenhar, pintar, dançar, o que falar à sua alma! Imprescindível também movimentar-se sistematicamente, tratar do corpo,  e as inúmeras e atraentes aulas virtuais facilitam isso. Engajar-se em um trabalho voluntário, auxiliar o Outro também nos enriquecem interiormente.

Aos poucos e com muita tenacidade e persistência vamos nos-adaptando às novas situações, vencendo o primeiro limiar, o ponto de entrada no desconhecido, e chegando ao segundo momento da nossa jornada: a Iniciação, o caminho das provas, o enfrentamento do segundo limiar e das “tentações”: desejo de negar que tudo isso seja real, transgredir as orientações médicas, “escapar” do isolamento social, negar a Ciência. Para chegar a apoteose, ao entendimento, muito esforço é requerido: o desapego das atitudes e comportamentos que não servem mais, a adoção de um  mundo novo, que aos poucos se descortina. Quantas vezes já ouvimos a frase: nossa realidade não será a mesma após o Covid 19!

Não chegamos ainda ao terceiro momento, o do Retorno,a volta ao cotidiano, mas podemos aproveitar esse tempo para adquirir novos conhecimentos e aprendizagens, descobrir outros horizontes, ampliar nossas potencialidades, enfim nos prepararmos para a Volta . Se empreendermos uma jornada consciente, produtiva, na busca de um desenvolvimento pessoal que possa trazer frutos também para o coletivo,iremos como diz Campbell  ao centro de nossa própria existência, e lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo.

Finalizando, a mensagem do próprio Campbell (1988): uma coisa que se revela nos mitos é que, no fundo do abismo, desponta a voz da salvação. O momento crucial é aquele em que a verdadeira mensagem de transformação está prestes a surgir. No momento mais sombrio surge a luz.

Fonte: Jornal da USP


Fernanda Dias – Psicóloga CRP 06/694 – Vasta experiência em atendimento psicológico (Diagnóstico Psicológico e Psicoterapia) e psicopedagógico. Docência em Psicologia e Psicopedagogia em instituições de nível superior, privadas e publicas. Coordenação e Supervisão em cursos de Psicologia e Psicopedagogia. Criação de Núcleos de Atendimento aos docentes e discentes em estabelecimentos de ensino de nível superior. Doutorado em Desenvolvimento Humano; Mestrado em Psicologia Educacional-UNICAMP/SP. Especialização em Psicoterapia Junguiana (UNIP/SP), Psicodrama (Sedes Sapientiae) e Psicopedagogia ( CFP- Conselho Federal de Psicologia). fe21@hotmail.com