Rotina alterada em função da Covid-19 afeta o sono e a qualidade de vida das pessoas

O isolamento social, o medo de se contaminar, o receio pela questão econômica, a vivência do luto de familiares e amigos sem a despedida, além da ausência de momentos de convívio em sociedade e diferentes da rotina habitual com lazer, viagens e descontração são fatores que contribuem para um quadro de distúrbio do sono, chamado Coronasomnia, como reflexo de todas as situações geradas pelo COVID-19.

Coronasonmia –  Entre os tantos impactos provocados pelo coronavírus, as alterações no sono podem atingir qualquer pessoa e foi definida pelos cientistas como “coronasomnia”. Surge uma nova população de pessoas com insônia crônica, com baixa produtividade, com maior risco para o desenvolvimento de hipertensão, depressão e outros problemas de saúde.

De acordo com a Dra. Luciane Mello (foto), médica do sono e idealizadora do Programa Saúde de Sono, uma iniciativa multidisciplinar que trata em um único local todos as queixas que levam o paciente a desenvolver distúrbios do sono, a insônia não é algo normal e impacta a qualidade de vida. É um dos pilares da vida saudável, aliada a uma rotina de boa alimentação e de atividade física, esses dois últimos muito mais comentados do que o sono em si.

Impacto – Um estudo com 15 países foi realizado para medir o impacto da pandemia no sono das populações. As prescrições de medicamentos para dormir aumentaram 15% entre fevereiro e março nos Estados Unidos, conforme dados da Express Scripts. No Centro de Distúrbios do Sono da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), o número de pacientes que reclamaram de insônia aumentou entre 20% a 30%, sendo que muitos deles são queixas de crianças.

Além disso, pesquisas online realizadas na China, na França e na Itália apontaram que 20% das pessoas entrevistadas estão com sono insatisfatório ou com insônia. “A insônia agrava o quadro de irritabilidade e de ‘pavio curto’, além de dar a sensação de a pessoa estar aérea e desnorteada. Tanto que algumas pesquisas realizadas na Itália no auge da pandemia relataram que as pessoas passaram a inclusive perder a noção de dias, semanas e do tempo em si”, explica a Dra. Luciane Mello.

Enganação do organismo -Depois de uma primeira noite sem dormir, o sistema mesolímbico é estimulado e libera dopamina. Por isso, em um primeiro momento, tem-se a sensação de energia, motivação, otimismo e desejo sexual. Porém, essa sensação positiva não é verdadeira e sim uma enganação do organismo.

Com pouco tempo, o impacto no cérebro é maior, pois começa a desativar as regiões responsáveis por avaliar decisões, ou seja, a pessoa fica mais impulsiva. Além disso, o corpo começa a ficar esgotado, deixando as reações mais lentas e piorando as funções perceptivas e cognitivas.

Se a ausência do sono persiste por dois ou mais dias, o corpo deixa de metabolizar a glicose e o sistema imunológico começa a falhar. “Nesse momento, a insônia já está afetando significativamente a qualidade de vida do paciente. Reforçamos que esse quadro deve ser investigado e avaliado individualmente para que não cause problemas mais sérios como o desenvolvimento de doenças associadas à falta de sono”, comenta a médica Dra. Luciane Mello.

Higiene do Sono – Uma rotina que pode melhorar a qualidade do sono e que tem sido impactada na pandemia é a higiene do sono, que é um conjunto de ações que favorece a qualidade do sono. Desconectar de aparelhos eletrônicos, se alimentar de maneira leve, evitar atividades físicas próximo ao horário de dormir, manter o quarto aconchegante e com uma temperatura agradável são algumas das condutas que beneficiam o sono.

Mas, como manter isso na pandemia, diante de uma rotina sem horários, em que o quarto vira escritório e que o trabalho não tem horário de início e fim? “O que percebo é que além dessas questões que influenciam não apenas o sono mas o dia todo das pessoas, somando as notícias da pandemia que não param de repercutir gerando medo e ansiedade, as pessoas que já possuíam insônia devido ao excesso de pensamentos e mesmo crises de ansiedade têm tido seus quadros potencializados”, comenta a especialista em Medicina do Sono.

A Dra. Luciane Mello reforça que a insônia já era – antes mesmo da pandemia – uma situação de saúde pública por ser contribuir para o surgimento de uma série de doenças. “Entre 10% a 15% das pessoas em todo o mundo sofrem de insônia crônica, a luta para adormecer ou permanecer dormindo, pelo menos três noites por semana durante três meses ou mais”, conclui a médica.

Expandir esse cenário a pessoas que sempre dormiram bem mas que hoje lutam com a ansiedade, o medo e as incertezas geradas pela pandemia torna a situação ainda mais alarmante. Buscar ajuda médica especializada ainda diante dos primeiros sinais de distúrbios do sono é fundamental para que o tratamento seja eficaz e não prejudique o organismo em outros aspectos.