Embora a pandemia da COVID-19 tenha atingido em cheio em todo o mundo a agenda de congressos e feiras em geral, muitos eventos seguem sendo realizados com base em recursos e tecnologias impensáveis há duas ou três décadas. Neste ano, Roma deveria receber alguns milhares de participantes do 16º Congresso Mundial de Saúde Pública, o que não aconteceu em razão da interdição sanitária decorrente da pandemia. Mas, como tantos outros similares, o evento não foi cancelado nem adiado, realizando-se de modo 100% virtual no período de 12 a 16 de outubro de 2020. Organizado pela Federação Mundial de Associações de Saúde Pública, Associação Europeia de Saúde Pública e, neste ano, pela Sociedade Italiana de Higiene, Medicina Preventiva e Saúde Pública, o congresso é um dos eventos científicos mais importantes e reconhecidos da área.

Alguns milhares de relatórios de pesquisas foram submetidos ao evento e avaliados por 134 especialistas de 36 países, coordenados pelo Prof. Martin McKee, do Reino Unido. Ao final, foram aprovados para apresentação aos pares 3.764 resumos dessas investigações científicas.

Tive a satisfação de ter sido o orientador de uma dessas pesquisas, conduzida pela doutora Mariângela Guanaes Bortolo da Cruz, do Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, realizada nos municípios paulistas de Silveiras e São José do Barreiro, no Vale do Paraíba.

O trabalho é um dos 3.764 apresentados em Roma e o resumo, publicado no ‘European Journal of Public Health’ (v.30, supp.5, Sept 2020), pode ser acessado pelo DOI (https://doi.org/10.1093/eurpub/ckaa165.454). Está também disponível na ‘Revista de Saúde Pública’ uma versão do artigo completo em português, que pode ser acessada pelo DOI (https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2018052016330).

O principal resultado dessa investigação é que a fluoretação da água, cuja eficácia preventiva contra a cárie dentária é amplamente reconhecida há mais de meio século, segue sendo efetiva e segura, como estratégia preventiva de saúde pública, mesmo quando a prevalência da doença é baixa e ainda que também o creme dental consumido pela maioria da população contenha fluoretos.

Tendo em vista as mudanças nas características epidemiológicas da distribuição da cárie dentária nas populações, nos diferentes países, profissionais de saúde bucal têm posto em questão a efetividade dessa medida atualmente. Em localidades com baixa prevalência da doença, e que dispõem há vários anos de águas de abastecimento público fluoretadas, tem sido cogitada a possibilidade de interromper essa medida. Mas não há estudos científicos confiáveis, em número suficiente, para formar evidência científica capaz de embasar essa decisão.

É bem conhecido que adicionar de modo controlado flúor à água de abastecimento público é uma tecnologia de saúde pública eficaz e segura para prevenir a ocorrência de cárie dentária em todas as idades. Mas o que acontece em situações em que a prevalência da doença é baixa? E se além da baixa prevalência as populações fizerem uso de creme dental com flúor? Nessas situações, pode-se renunciar à fluoretação?

Em Calgary, no Canadá, a baixa prevalência da doença e o acesso a cremes dentais com flúor levou o município a suspender a fluoretação das águas, em 2011. No Reino Unido, especialistas debatem se fluoretos devem ser adicionados às águas de abastecimento público. Em Liverpool, por exemplo, a água não é fluoretada, mas em Newcastle sim.

Em 2017, poucos anos após a decisão de interromper a fluoretação, vários grupos de cidadãos de Calgary pediram à Prefeitura que voltasse atrás e retomasse a fluoretação das águas. O pedido teve o apoio da Universidade local, pois foi detectado aumento na prevalência da doença na população local, indicando riscos de descontinuar a implementação da medida.

E no Brasil, onde a fluoretação tem amparo legal desde 1974, teria sentido utilizá-la em cidades em que a prevalência da doença é baixa e, além disso, há acesso a cremes dentais com flúor? Não seria desperdiçar recursos públicos?

A pesquisa apresentada no 16º Congresso Mundial de Saúde Pública pela Dra. Mariangela Cruz buscou respostas para essas questões. A ocorrência e as características da cárie foram analisadas em crianças de dois municípios cujas condições demográficas e socioeconômicas são similares: Silveiras, onde a água é fluoretada e São José do Barreiro, em que a população não tem acesso a esse benefício preventivo. Como há amplo acesso a cremes dentais com flúor por essas populações, a hipótese da pesquisa foi de que isto bastaria em termos preventivos e que, portanto, não haveria diferença na situação da doença nas crianças das duas cidades. Como as populações desses municípios são relativamente pequenas, a opção metodológica foi não trabalhar com amostras populacionais, mas examinar todas as crianças. Foram, então, realizados censos, examinando-se todas as crianças e conferindo, desse modo, uma grande precisão aos resultados obtidos.

Apesar da hipótese de que o amplo uso de creme dental fluoretado bastaria para prevenir a cárie nas duas cidades de modo similar, a pesquisa mostrou que houve diferença na ocorrência da doença, ainda hoje um importante problema de saúde pública no Brasil e em vários países. Foi rejeitada a hipótese de similaridade na prevalência e grau da cárie nas duas populações, pois constatou-se diferença na magnitude com que a doença atingiu ambas as populações: as médias CPOD (um índice que avalia sua extensão) foram de 1,76 em Silveiras e 2,60 em São José do Barreiro. Além disso, em Silveiras 42% das crianças estavam livres da cárie, ao passo que isso aconteceu em apenas 34% em São José do Barreiro.

A conclusão da pesquisa é de grande interesse não apenas para o Brasil, mas também para ajudar canadenses, britânicos e outros povos a decidirem se, mesmo tendo acesso a cremes dentais com flúor, vale ou não a pena adicionar flúor às águas que abastecem suas populações.