Teve voto até para o Joe Biden, o que certamente diz mais sobre o alívio de ver Trump fora do governo dos Estados Unidos do que, propriamente, sobre as qualidades de Biden. Mas alívio é alívio e recebi e computei devidamente o voto.

2020 foi realmente um ano atípico, desses que marcam gerações. Quem poderia supor, em janeiro passado, que a COVID-19 se transformaria na pandemia que, aterrorizando o mundo, faria adoecer cerca de 80 milhões de pessoas, levando a óbito quase 2 milhões, em menos de um ano? Foi enorme, sem precedentes, seu impacto sobre todas as dimensões do cotidiano, em todo o planeta. Os efeitos econômicos são dramáticos, com fechamento ou graves ameaças a empresas e eliminação de postos de trabalho. No pós-pandemia não viveremos mais como antes, pois novos recursos e possibilidades adentraram lares, escritórios, fábricas, escolas e todos os lugares, impondo mudanças.

Ao longo do ano, como têm feito desde que o ‘Prêmio Meu Sorriso do Ano’ foi lançado em 2003, amigas e amigos foram me indicando nomes para o Prêmio de 2020. Agradeço a todos por seu indispensável e generoso auxílio, mesmo em um ano tão “pesado” e dramaticamente cruel com a vida humana. Cheguei mesmo a cogitar não eleger nenhum sorriso em 2020, mas recuei. Pensei que não tenho esse direito, quando tantos não cedem e enfrentam todo tipo de transtornos e dificuldades. É preciso resistir à desolação e não perder a esperança. Pensei que, por paradoxal que pareça, eleger um Sorriso-2020 é um jeito de celebrar a vida e, desse modo, expressar meu respeito aos que a perderam nesse ano. Muitas dessas pessoas, foram vítimas da ignorância e do descaso com a… vida humana. Uma amiga aprovou manter a premiação: “Ótimo! Isso mesmo! Não podemos deixar de eleger neste ano, mesmo com retrocessos e Covid. Talvez eleger em 2020 seja até mais importante!”.

Amigas e amigos registraram o merecimento do Prêmio pelo chinês Li Wenliang, o médico oftalmologista do Hospital Central de Wuhan que detectou o surto do que seria posteriormente identificado como o novo coronavírus (SARS-CoV-2). Em 30 de dezembro de 2019, ele informou colegas e autoridades sanitárias sobre o surto, recomendando-lhes que usassem equipamentos de segurança para evitar a infecção. Juntamente com mais sete colegas foi investigado pela polícia chinesa sob a acusação de “espalhar boatos”. Consta que teriam sido obrigados a assinar um documento no qual se comprometiam a não divulgar informações sobre a doença. Mas logo se comprovou que tinham razão em alertar sobre o que haviam constatado. Aliás, o trabalho de Wenliang custou-lhe a vida, pois foi contaminado ao tratar uma paciente. Faleceu aos 34 anos, em 7 de fevereiro. Deixou esposa e uma filha de cinco anos. Li Wenliang representa, simbolicamente, os milhares de profissionais de saúde que adoeceram em todo o mundo ao atuar na linha de frente do combate à COVID-19 e, sem dúvida, bem que merece o Prêmio.

Além de Li Wenliang recebi várias indicações, dentre as quais os sorrisos “fluoretados” (Porto Alegre e São Paulo) de Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos e o não fluoretado (Recife) de Marilia Arraes, um trio de jovens que além de belos sorrisos representam esperança de compromisso com valores que buscam aliar liberdade e equidade em suas atuações políticas.

Monica Salmaso, por “alegrar nossa quarentena com suas lives” foi lembrada, juntamente com a atleta Carol Solberg, por ter soltado o grito de “Fora, Bolsonaro!” que está na garganta de meio mundo. Carol expressou a disposição de boa parte da cidadania brasileira, de resistir aos ataques ao Estado Democrático de Direito, que conquistamos após tantas lutas com a Constituição de 1988. Nesse bloco dos indicados, mas que não receberam muitos votos de amigas e amigos está, uma vez mais, o Papa Francisco, cujas palavras têm tocado corações e mentes mundo afora. Está também o cacique Marcos Xukuru, eleito prefeito de Pesqueira, em Pernambuco, com 51,6% dos votos válidos, e que teve sua posse ameaçada, conforme denunciou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), com base em ação judicial na qual ele e seus seguranças foram transformados de vítimas em réus. Marcos, vale registrar, é filho de Xicão Xucuru, assassinado em maio de 1988, por lutar pela demarcação do território do povo Xucuru. Estão também Luana Alves, do Rio Grande do Norte, indicada por um amigo para quem ela é “símbolo de uma nova geração na política, séria, comprometida” e Linda Brasil, de Sergipe, “a primeira vereadora transexual eleita e a mais votada em Sergipe”.

Ailton Krenak, líder indígena, também ambientalista, filósofo e escritor, foi indicado ao Prêmio Meu Sorriso do Ano 2020, e recebeu muitos votos, por “representar resistência aos ataques ao meio ambiente e por trazer um sorriso que vem dos povos tradicionais, dos verdadeiros donos desta terra e que sempre cuidaram dela”.

Também a ex-prefeita paulistana Luiza Erundina recebeu dezenas de votos. Amigas e amigos afirmaram que Erundina “não desanima e é sempre ética na busca de uma vida melhor para os brasileiros” e que “se chegar na idade dela, quero ter aquele largo sorriso de esperança que conquistou a juventude”. Além disso, “resgatou nossa esperança como um ‘ato revolucionário’ e nos mostrou, aos 86 anos, que tudo vale a pena quando o sonho não é pequeno.” Ela “não se cansa da luta, me encanta e me dá forças”. À insinuação de que estaria “velha para seguir na política, ocupando o lugar de gente mais jovem”, em entrevista à revista Marie Claire, Erundina respondeu que “estou vivendo meu tempo, minha saúde e inteligência, minha experiência. Estou fazendo mal para alguém? Não estou. E quero que mulheres com a minha idade também se sintam assim, que sejam contagiadas pela minha vivência e vontade de seguir trabalhando. E, para aqueles que se sentem incomodados, desejo que tenham a sorte de chegar aonde cheguei com a energia e convicção que tenho. Sabe, se você perde seu projeto de vida, tudo perde o sentido. E meu projeto de vida não termina no meu tempo. Meu projeto é sonhar com outro futuro. Não quero só mudar São Paulo e Brasil, quero mudar o mundo. O meu sonho, de uma sociedade socialista, fraterna e igualitária, infelizmente não vai acontecer no meu tempo, tenho consciência disso. Mas se eu não fizer minha parte agora, esse modelo de sociedade não vai acontecer nunca. A velhice não é doença, não é defeito, a velhice não impede o sonho. Portanto o sonho que me move, em relação às transformações que a sociedade precisa, não envelheceu”.

O padre Júlio Lancellotti foi indicado e teve muitos, muitos votos. Ao lado de Luiza Erundina liderou a apuração. Apresentado como um religioso que trabalha com “moradores de rua”, explicou: “Eu não trabalho com morador de rua. Eu convivo com eles. Porque trabalhar parece que são objetos. É preciso olhar para a vida de forma humana. Isso não é tarefa só para os religiosos. Mas eu não conseguiria viver a dimensão religiosa sem humanizar a vida”. Assinalou que “não é verdade que Deus está acima de todos, pois Deus não está acima de ninguém. Deus está no meio de nós!”. Vários parceiros(as) na premiação do Sorriso do Ano indicaram que “cada homilia de Júlio Lancellotti é uma aula de formação política e sua participação social retrata o que ele prega, pois é a coerência de toda uma vida na luta pelo próximo. Ele parece ser, infelizmente, um dos últimos moicanos entre os padres que estão realmente ao lado dos mais vulneráveis em nossa sociedade. Nada ostenta, além de seu largo sorriso”. Outros disseram que o padre Lancellotti “é um exemplo de empatia e altruísmo, quando hoje vemos muitos padres nas redes sociais mais preocupados com suas respectivas aparências físicas do que em ficar ao lado dos menos favorecidos. Nunca os vemos celebrando uma missa, apenas cantando (e alguns cantando muito mal, diga-se de passagem) e se comportando como pseudocelebridades e ‘gurus’ de autoajuda (também péssimos)”. Foi lembrada também “a triste campanha difamatória que sofreu em 2020 por parte de um candidato à Prefeitura de São Paulo” e que ele é, “exemplo de resistência, de enfrentamento de adversidades e de solidariedade mesmo em um ano tão difícil com os esquecidos, desvalidos e excluídos, e manifestando seu amor ao próximo, ao valorizar seres humanos que a sociedade, hipócrita, rejeita”. Para um amigo “ele enxergou sorrisos, mesmo com o uso de máscaras, nos humanos em situação de rua e não deixou de agir, promovendo as articulações com os consultórios odontológicos de rua para que fossem atendidos. Teve sensibilidade para perceber o sofrimento causado pela dor de dente compreendendo, ao mesmo tempo, o prazer e a satisfação que a boca proporciona ao mastigar um alimento e saciar a fome”.

Bem que, por tudo isso, o Padre Júlio poderia ser galardoado com o Prêmio Meu Sorriso do Ano 2020. Mas ocorreu que, felizmente, seu trabalho religioso e humanitário foi amplamente reconhecido em 2020. Em 11 de dezembro, ele recebeu o 7º Prêmio de Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, tendo recebido 15.598 indicações de um total de 16.643. Em 21 de dezembro, foi a Universidade de São Paulo que o homenageou, agraciando-o com a 17ª edição do Prêmio USP de Direitos Humanos 2020. A universidade paulista criou o Prêmio no ano 2000, com o objetivo de identificar e homenagear pessoas e instituições que, por suas atividades exemplares, tenham contribuído significativamente para a difusão, disseminação e divulgação dos direitos humanos no Brasil. Padre Júlio foi o vencedor na categoria individual. O prêmio institucional foi dado, em 2020, ao Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Neste contexto, a vencedora do Prêmio Meu Sorriso do Ano 2020 é a primeira mulher negra, professora, eleita vereadora pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em uma cidade cuja população tem predominantemente a cor da pele branca (ou “rosada”, como disse certa vez Steve Biko, o líder negro sul-africano), e ameaçada de morte antes mesmo de tomar posse do cargo.

Embora sejam várias informações sobre a ganhadora do Prêmio, o leitor(a) bem informado pode ter ficado, ainda assim, em dúvida. É compreensível, pois essa breve descrição se aplica não a uma, mas a duas mulheres: uma delas é Ana Lucia Martins, de Joinville, Santa Catarina; a outra é Carol Dartora, de Curitiba, Paraná. Com ambas, o Prêmio estaria em boas e merecidas mãos.

Mas a regra aqui é premiar um(a) e apenas um(a). Então, o prêmio vai para a Carol Dartora, com uma menção mais do que honrosa para a Ana Lucia Martins.

A escolha de Carol não significa que o seu feito notável tenha sido mais brilhante, ou algo assim, do que o logrado por Ana Lucia, mas deriva do simbolismo que a cidade de Curitiba adquiriu no período histórico recente no Brasil, sendo posta no centro nevrálgico de decisões jurídico-institucionais que mobilizaram politicamente o país.

Carol Dartora, me disseram amigas e amigos de Curitiba, “além de ter dentes bonitos e brancos, lindos em qualquer cor de pele – ô sorriso lindo sô! – foi capaz de romper com muitos dogmas aqui em Curitiba. Além de estar sempre sorrindo. Professora em uma cidade que viveu o maior desrespeito a essa classe profissional com o cerco e o bombardeio promovido pelo governo [de Beto Richa, sendo então secretário de Segurança Pública o hoje deputado federal Fernando Francischini]. Os professores foram cercados e helicópteros lançaram bombas. Na mesma praça em que, anos antes, Álvaro Dias havia atropelado a manifestação dos professores com a cavalaria. Mulher negra em uma cidade que se orgulha de sua ‘ascendência europeia’. E petista na cidade da Operação Lava-Jato. Sua eleição é uma baita conquista e representa muito para nós, pois é a primeira vez na história da cidade! Seu sorriso é o de uma mulher que não desiste, mas resiste com coragem e esperança. Alguém como você, Paulo [eu fui estudante em Curitiba no período de 1971 a 1978], que conhece muito bem Curitiba, sabe que a eleição de Carol Dartora foi uma bomba semiótica na história da cidade, tornando visíveis pessoas até então invisíveis. Lembre-se que a Associação Comercial do Paraná ingressou com uma ação judicial por meio da qual conseguiu derrubar a lei municipal que instituía na capital paranaense o 19 de novembro como feriado do Dia Nacional da Consciência Negra, ou Dia de Zumbi dos Palmares, como ocorre em várias cidades do Brasil”.

O Prêmio Meu Sorriso do Ano 2020 é da Carol Dartora, com votos de sucesso ao seu mandato de vereadora, adquirido legitimamente nas urnas. Aliás, uma palavra sobre urnas: elas devem ser eletrônicas, sim, como recomenda a era da informação. Não nos deixemos ludibriar pelos que querem nos devolver ao tempo do “voto de cabresto”, da República Velha, com suas cédulas de papel. O mandato de Carol, faço questão de enfatizar, veio das urnas, sob a supervisão de uma Justiça Eleitoral de um Estado Democrático de Direito.

Estudante em Curitiba, no auge da ditadura civil-militar, sonhei com um país democrático em que fosse possível a eleição de mulheres negras para os poderes da República. Sonhei e lutei e sofri as consequências dessas lutas.

Mas a eleição livre, democrática, limpa e justa de Carol Dartora é mais uma demonstração de que sonhar e lutar valeu, pois sempre vale, a pena. Tê-la como vereadora em Curitiba melhora a cidade, o Paraná e o Brasil. É a concretização de um sonho (também) meu.