Pesquisadores avaliaram os níveis de duas enzimas no sangue de 53 pacientes hospitalizados por covid-19 em comparação com 29 pessoas saudáveis

A covid-19 já fez mais de 4 milhões de mortes no mundo e mais de 580 mil no Brasil e, para conter os desfechos negativos, cientistas buscam entender quais os mecanismos envolvidos na mortalidade pela doença. Um estudo publicado na Biomedicine & Pharmacotherapy avaliou o papel de duas enzimas no sangue de pacientes hospitalizados por covid-19. Os resultados apontam que ambas podem ser biomarcadores prognósticos, ou seja, podem indicar risco de mortalidade para a equipe médica dar andamento nos tratamentos mais adequados.

A pesquisa identificou aumento nos níveis da metaloproteinase (MMP) 2 e 9 em pacientes que morreram pela covid-19. As MMPs formam uma família de 25 enzimas que atuam na degradação das proteínas da matriz celular, que promovem a união das células. Essa destruição leva à remodelação, que é a necessidade de o corpo promover a cicatrização dos órgãos.

“Entre as patologias relacionadas às mudanças provocadas pela MMP-2 e MMP-9 estão: infarto agudo do miocárdio, inflamação pulmonar e aneurisma da aorta abdominal. Identificamos que essas duas metaloproteinases estavam em níveis maiores no sangue dos pacientes que morreram por complicações da covid-19”, conta Christiane Becari (foto), líder do estudo e professora no Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica do Departamento de Cirurgia e Anatomia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.

De acordo com a professora, as enzimas degradam a complexa rede de macromoléculas do pulmão, que desempenham um papel fundamental na sustentação estrutural do órgão. “Quando há uma alteração no equilíbrio dessas macromoléculas pulmonares e das MMPs, já temos na literatura científica evidências que essas enzimas contribuem para o desenvolvimento das doenças pulmonares, atuando na remodelagem do tecido pulmonar, bem como no estímulo para migração das células inflamatórias”, explica.

Os pesquisadores contaram com dois grupos, sendo que um era composto de 53 pacientes internados nas Unidades de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP) e o outro, de 29 pessoas saudáveis. “Nosso estudo é o primeiro a demonstrar o papel da MMP-2 na covid-19 e pode contribuir para o entendimento da fisiopatologia da doença, ou seja, entender os mecanismos de atuação do coronavírus no organismo”, explica.

Outro resultado da publicação é que a MMP-2 foi reduzida e a MMP-9 foi aumentada no grupo de pacientes internados por covid-19. “Na literatura, esse achado  foi reportado em pacientes com sepse por outros motivos e a falta de MMP-2 em modelo animal de lesão pulmonar se relacionou com dificuldade de resolver a inflamação. Como a MMP-2 é uma enzima predominantemente anti-inflamatória, sua supressão na covid-19 grave provavelmente está relacionada e contribui com o estado inflamatório sistêmico desses pacientes”, afirma.

O estudo tem como primeira autora a aluna Carolina D’Avila Mesquita, da FMRP. Além disso, conta com pesquisadores da FMRP e da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP), ambas da USP, Fiocruz-Minas e Mayo Clinic, dos Estados Unidos da América (EUA).

Mais informações: e-mail cbecari@usp.br, com Christiane Becari

Fonte/texto: Jornal da USP/por Giovanna Grepi