Se em 2020 teve voto até para o Joe Biden, mostrando o alívio que amigos(as) que me ajudam a escolher anualmente o Prêmio Meu Sorriso do Ano tiveram, ao ver Trump fora do governo dos EUA, neste 2021 um voto foi para o Xi Jinping, o poderoso presidente chinês, também secretário-geral do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central do gigante asiático. O amigo que enviou o voto disse que Xi Jinping vem tendo “papel fundamental na nova onda de inovações institucionais na China”, levando aquele país a uma posição de liderança no mundo e no controle da pandemia de covid-19. Para o meu estimado amigo-camarada a China vem fazendo “progressos na área tecnológica, na cadeia industrial, garantindo os meios de subsistência da população e o controle ecológico”. A revista ‘Time’ o nomeou “Person of the Year” em 2017, colocando-o entre as pessoas mais influentes do mundo.

Além do presidente chinês também a socióloga Rosângela da Silva, a “Janja”, de 55 anos, namorada do ex-presidente Lula, foi indicada. Janja, vista frequentemente sorrindo, é mesmo uma pessoa alegre e divertida segundo quem a conhece, mas sua indicação deve-se provavelmente mais à vontade de que ela seja feliz nesta nova fase da sua vida, do que em decorrência de suas atividades profissionais ou políticas. É também o que desejo para ela, com o registro da sua indicação.

Outro indicado o foi com a ressalva de que “ele não transformou o mundo, não lutou por alguma causa específica, boa ou má. Mas ocorre que, graças a ele, seu conhecimento e ousadia, máscaras caíram”, “mentiras foram reveladas e manipulações descobertas”. A ele o jornalista e escritor Fernando Morais dedicou toda a renda da única noite de autógrafos de lançamento do seu livro “Lula”, com a biografia do ex-presidente, realizada justamente em Araraquara. Os amigos que o indicaram se referem a Walter Delgatti Neto, o ‘hacker’ de Araraquara que revelou o conteúdo de conversas em que autoridades públicas incumbidas de fazer justiça cometiam graves violações de leis que deveriam fundamentar suas ações. Não obstante sua contribuição ao esclarecimento de fatos do mais alto interesse público, Delgatti vem passando por dificuldades financeiras. Condenado por sua determinação de apurar e divulgar os fatos tal como ocorreram, sua coragem está sendo cruelmente “premiada” com o constrangimento de ter de usar tornozeleira eletrônica. Para um dos amigos que o indicou ao Prêmio Meu Sorriso do Ano 2021, Delgatti “é um herói que está pagando um alto preço por sua bravura”.

Entre os indicados estiveram uma vez mais o padre Júlio Lancellotti e a professora Margareth Dalcomo, ambos recomendados por vários amigos(as). Foram sugeridos também os nomes da “mineira brasileira Conceição Evaristo, da moçambicana Paulina Chiziane”,da “cientista baiana Jaqueline Goes de Jesus, umas das responsáveis pelo sequenciamento do genoma do primeiro caso de coronavírus na América Latina-Brasil” e da estadunidense Bell Hooks, ou melhor bell hooks, pois foi com esse pseudônimo, grafado com todas as letras minúsculas que Gloria Jean Watkins, escritora, teórica feminista e ativista antirracista ficou conhecida em todo o mundo, por meio dos mais de trinta livros e dezenas de artigos publicados, palestras e documentários. Gloria Watkins, ou bell hooks, grafava sempre em minúsculas seu nome artístico em homenagem à uma bisavó. Seu ativismo antirracista, e sua obra acadêmica, têm como referência a teoria interseccional, formulada por Kimberlé Williams Crenshaw, cientista social nas áreas de raça e gênero, que analisou as interações e a sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação. Segundo Kimberlé Crenshaw, o conceito de “interseccionalidade” foi desenvolvido após ela ter tomado conhecimento da história de uma mulher que, tendo sido duplamente discriminada, por ser mulher e ser negra, ainda assim não conseguiu levar adiante um processo judicial contra a empresa que a discriminou. Crenshaw partiu da hipótese de que, em determinadas situações, ocorre uma interseção entre diferentes identidades sociais, e quando isso ocorre, a discriminação assume características singulares. Bell hooks aprofundou, disseminou e popularizou o conceito de interseccionalidade, explorando diversas possibilidades midiáticas e de formas literárias.

Sobre Conceição e Paulina, meu amigo disse que “a trajetória existencial das mulheres negras, tanto na África como na diáspora, se considerada em termos coletivos surge marcada por lutas, sofrimentos e resistência. Entretanto, essas mulheres, na maioria das vezes, retiram do próprio cotidiano dolorido não só a subsistência no plano material, como também inventam adequados suportes psicológicos para se fortalecerem e se colocarem como esteio de suas famílias e muitas vezes das comunidades nas quais se acham inseridas”. Lancellotti, vítima recorrente de agressões desferidas por gente que se diz ou pensa que é “cristão”, as ignora sabiamente, toma as medidas cabíveis e segue em frente com seu comovente trabalho de apoio social que conta com amplo reconhecimento e que não é aceito, compreendido e valorizado apenas por “cristãos” com coração de pedra. Sobre a doutora Margareth, Zuenir Ventura conta (O Globo, 28/12/2021) que ela é também chamada “Nossa Senhora dos Jornalistas” e que “não sei o que seria de nós e, portanto, dos leitores e telespectadores sem sua disposição de atender a qualquer hora a insistência, quando não impertinência, destes que a têm no lugar mais elevado no altar da nossa admiração”. Conceição teve no período mais recente, obras literárias traduzidas para o inglês e o francês, indicando a universalidade dos seus livros e a qualidade da literatura que produz. Paulina, a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, foi a vencedora, em 2021, do Prêmio Camões – e, claro, este modesto Prêmio Meu Sorriso do Ano não será concorrente de Camões. Jaqueline coordenou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2, em aproximadamente dois dias após a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil. O importante trabalho da biomédica foi ampla e merecidamente reconhecido em todo o país. Incansáveis e com enorme convicção sobre seus deveres nos meios em que atuam, o religioso e a epidemiologista poderiam ser justamente premiados, bem como as escritoras e a pesquisadora.

Outros amigos(as) indicaram a jovem líder indígena Txai Suruí, da etnia paiter-suruíde Rondônia, ressaltando que seu “sorriso luminoso na COP26 salvou o Brasil da vergonha ambiental global”.Txai, de apenas 24 anos, está concluindo o curso de graduação em direito, coordena o Movimento da Juventude Indígena de Rondônia e trabalha na organização não governamental de defesa dos direitos indígenas Kanindé. Fluente em inglês (ela residiu por quase dois anos em Sidney, na Austrália),discursou na abertura oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP26, realizada em novembro em Glasgow, na Escócia. Denunciando as agressões ambientais na Amazônia, Walela Txai Suruí disse que “meu pai, o grande cacique Almir Suruí, me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a lua, o vento, os animais e as árvores. Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando, ela nos diz que não temos mais tempo”. Txai denunciou a morte do indígena Ari Uru-Eu-Wau-Wau, que “trabalhava registrando e denunciando extrações ilegais de madeira dentro da aldeia onde morava: ele foi morto por defender a floresta”. Foi o bastante para ser duramente criticada pelo presidente Jair Bolsonaro, que afirmou que Txai foi à COP26 para “atacar o Brasil”. À fala do presidente seguiram-se muitas manifestações hostis a Txai em redes sociais. Ela reagiu ao presidente afirmando que “na verdade eu só vim trazer a realidade dos povos indígenas. E, depois desse pronunciamento dele, eu venho recebendo muitas mensagens racistas, misóginas, mensagens de ódio nas minhas redes sociais, fake news, querendo descredibilizar o meu discurso, a minha pessoa. Sendo que eu estou para uma luta que não é só minha. Minha mãe me disse para continuar com minha mensagem de esperança e meu pai me lembrou de que sou uma guerreira da paz”.

Outra indígena indicada foi Elâine Souza, do povo Katokinn. Também afrodescendente, ela foi eleitaMiss Brasil 2021, após ter vencido a disputa em Alagoas. Foi indicada ao Prêmio Meu Sorriso do Ano 2021, pois “representatividade importa”, me disse a amiga que propôs seu nome, alertando-me que “a identidade dos indígenas é, em primeiro lugar, sujeita ao autorreconhecimento”. Ela “tem 20 anos e representa também a população de Pariconha, no Sertão alagoano. No dia da prova do traje típico, publicou em suas redes sociais que se sentia ‘muito honrada em representar meu município’. Entre lutas e conquistas a força indígena se intensifica! Forma uma única voz, bate no peito com orgulho e o pé firme no chão, dentro do terreiro pra dançar o toré e fora. Pariconha é Katokinn, é karuazu, é Jeripancó!”. Após o anúncio da sua vitória, Elâine comemorou dizendo que representa “a força da mulher nordestina, alagoana, indígena e brasileira! Com garra e determinação, dentro do que eu sou e poderia oferecer”. Agora, disputará o título mundial.

Pesquisas que buscaram identificar, em diferentes países e línguas, a palavra que melhor definia o ano de 2021, convergiram para “vacina”. Com efeito, a vacina contra o SARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável pela pandemia de covid-19, encheu o mundo de esperanças, tão logo foi anunciada. No Brasil, a enfermeira Mônica Calazans, viúva, com 54 anos de idade, diabética e hipertensa, que havia se voluntariado para atuar na linha de frente contra a covid-19, foi, com toda justiça, escolhida pelas autoridades paulistas para ser a primeira a se imunizar no país. A vacina foi aplicada em Mônica por Jéssica Pires de Camargo, 30 anos, enfermeira de Controle de Doenças e Mestre de Saúde Coletiva pela Santa Casa de São Paulo. Ambas, Mônica e Jéssica, bem que mereciam o Prêmio Meu Sorriso do Ano de 2021.

Embora eu prefira que o Prêmio Meu Sorriso do Ano seja dado a alguém vivo, vários amigos(as) indicaram pessoas que faleceram em 2021. Creio que isso se deve ao fato de que estamos (pelo menos no meu círculo de amizades), muito afetados pelas mortes decorrentes da pandemia. E quando muita gente supunha que a covid-19 diminuiria seu impacto, surgiu a variante ômicron trazendo mais apreensão e angústia, em todo o mundo. No Brasil vimos, estarrecidos, manobras políticas que inacreditavelmente partiram não de indivíduos ou grupos fanáticos, mas do próprio centro do Estado, criando obstáculos à vacinação infantil. A postergação de decisões abriu ainda mais o campo para a disseminação da variante ômicron. A pandemia, que arrefecia, voltou a matar. Por este motivo, neste ano abrirei uma exceção à regra de não premiar falecidos e peço a compreensão do leitor.

O vencedor em 2021 é um amigo que foi levado pela covid-19.

Tive alguns parentes e vários amigos(as) vítimas, direta ou indiretamente, da pandemia. Com João Capel Cortez, motorista de caminhão, “boiadeiro do asfalto” que, na infância e juventude ajudava meu avô “Paco” na roça de café em Paranavaí, e que, sete anos mais velho que eu, me ensinou a colher o amendoim plantado entre os pés de café, quando ainda havia muitos cafezais no noroeste do Paraná, rendo minha homenagem aos parentes que perdi. João era uma das pessoas mais bem-humoradas com quem convivi. Aprendi com ele a expressão “cara feia pra mim é fome!”, que repetia em tom de zombaria para amigos e parentes com os quais tinha intimidade, sempre que via alguém com “a cara fechada”. Com Lamartine da Silva Fernandes, o Lama, sul-mato-grossense de Bela Vista, engenheiro craque em ar-condicionado de grandes ambientes, e grande apreciador de música, sobretudo sambas e guarânias, registro minhas condolências a tantos(as) amigos queridos que a covid-19 retirou do meu convívio. Em Relato de uma filha sem pai, Letícia Oliver Fernandes fala da dor da perda. E em sua página no Facebook faz um relato pungente sobre o pai, de um modo que quero transcrever aqui: “Eu não estive com o meu pai em todos os dias em que ele esteve internado. Eu não me despedi dele pessoalmente antes de ele ser sedado. Mas nós deixamos uma lista de músicas num celular pra ele ouvir durante todos aqueles dias. Músicas que nos lembrassem dele, músicas que sabíamos que ele gostava, músicas que ele queria aprender a cantar, músicas que o acalmassem. E ainda que me doa muito não poder ter abraçado ele uma última vez, eu me apego ao desejo profundo de que aquele fone, colocado com cuidado por um enfermeiro, tenha transmitido a nosso afeto, a nossa esperança e a nossa despedida com a intensidade que estava ali implícita. A música acompanhou meu pai no nascimento; seu nome era uma homenagem a um compositor brasileiro. O acompanhou na sua passagem. E o acompanha nas memórias, em cada música que eu relembrar ou descobrir”.

Lama e “Tio João” viverão eternamente em meu coração e seus sorrisos tão cheios de vida estão cravados para sempre em minha memória. Com eles o Prêmio Meu Sorriso do Ano 2021faria justiça a dois seremos humanos honrados, decentes, cheios de energia, que foram tristemente tirados das suas famílias.

Mas o Prêmio Meu Sorriso do Ano de 2021 é dedicado a Carlos Alberto Pletz Neder, um amigo de quase meio século, que conheci logo nos primeiros meses após fixar residência em Sampa, no final dos anos 1970. Eu o conheci nas lutas democráticas daquele período, numa atividade que envolvia os residentes do Hospital das Clínicas, e na qual eu estava representando o Núcleo de São Paulo do CEBES, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde. Não me lembro de tê-lo visto sorrindo, nem naquele primeiro encontro, nem nas centenas de outros encontros desde então. Depois de longa internação, Carlos Neder não resistiu às consequências da covid-19e faleceu em 25/9/2021. Desde então, várias e justas homenagens vêm sendo feitas ao médico sanitarista que se fez político para dar coerência às lutas que escolheu travar, as quais convergiram sempre para a justiça social, contra as iniquidades, pelo respeito aos direitos humanos e em defesa da democracia e da cidadania ativa. Neder foi chefe de gabinete da prefeita Luiza Erundina e, em seguida, seu secretário de Saúde (1990-92). Foi também vereador na Câmara paulistana e deputado estadual paulista.

Carlos Neder não foi um homem de muitos sorrisos na vida pública. Mesmo em ambientes mais restritos, era bastante contido. Mas nunca o vi triste, nem amargurado. Não estar “sorrindo por aí”, ou “rindo à toa” era uma espécie de autodefesa dele, creio, pois dadas as nossas conhecidas desigualdades e o embrutecimento das relações sociais, talvez temesse algum questionamento do tipo “está rindo de quê?” – o que, para um político, pode ser péssimo. O amigo que o indicou para o Prêmio lembrou que sua vida foi “dedicada a fazer outras pessoas sorrirem (ainda que arrancar um sorriso dele fosse sempre tão difícil)”. Era mesmo “fechadão” o Neder. Até nos materiais de campanha eleitoral, nos quais tanta gente costuma exagerar nos sorrisos e abraços. Certa vez, ao ver um dos seus folhetos pedindo votos, atrevi-me a alertá-lo sobre isso. Reclamei que “assim fica difícil”, pois “como é que eu vou indicar aos meus colegas dentistas que votem em alguém que não sorri? E o que pensarão eleitores de um candidato que sequer esboça um sorriso?” E, então, ele abriu um sorriso largo e generoso, como quem aprovava o comentário. Deve ter funcionado, pois logo naquela, e nas eleições que se seguiram, víamos um Neder sorridente nos materiais de campanha.

É essa a imagem que trago comigo e que me acompanhará sempre, a de Carlos Neder sorrindo. Não era, eu bem sei, um riso fácil, nem demagógico, com fins meramente eleitorais. O sorriso do Neder era a expressão da sua sincera confiança nas lutas populares, na força da organização dos movimentos sociais, na esperança de dias melhores e no compromisso que ele tinha, e afirmava diariamente, com valores como respeito, solidariedade, cooperação, compreensão, confiança, afeto e amizade. Conforme escreveu uma amiga em comum, “Neder foi o homem mais ético que eu conheci”. Eu concordo com ela.

Por tudo isso, e mais o que palavras não conseguem expressar, Carlos Neder é, in memoriam, o vencedor do Prêmio Meu Sorriso do Ano 2021.