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Ano VI - Nº 82 - Março de 2004 - 1ª Quinzena

O CD bucomaxilofacial e a
sala de cirurgia
Depoimento

Elaine Gomes dos Reis Alves*

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Entrar no centro cirúrgico foi uma experiência impar.

Soube que haveria uma cirurgia de fratura em mandíbula e, sem pensar, pedi autorização para assistir ao cirurgião responsável que, também sem pensar, autorizou de imediato.

Estava ansiosa por compreender a equipe neste momento, ao mesmo tempo, estava com muito medo de passar mal e ‘dar o maior vexame’.

Tomei coragem e fui.

Quando cheguei, o paciente ainda estava acordado e tive a oportunidade de conversar com ele antes de ser anestesiado. Era um jovem de 21 anos, vítima de acidente de moto.

Eu estava tensa.

Assisti a todos os procedimentos e ao mesmo tempo em que me aproximava, também me afastava. Quando começaram a abrir o acesso para o osso fraturado, fiquei perto.

Finalmente relaxei!

Assistia atentamente ao procedimento e, volta e meia,  olhava para o que estava exposto do rosto do rapaz (nariz e boca), mas esse olhar trazia junto – para mim – o rapaz, o que me causava grande sensação de angústia.

Compreendi tantas coisas naquele momento. ..

Após a anestesia, o rapaz não estava mais lá, sobrara apenas um corpo inerte, sem cor e com sua vida mantida e controlada por uma máquina – onde aliás se encontrava toda a atenção do anestesista. Em determinado momento passei a questionar onde estava o rapaz. Talvez Freud explicasse que estava recolhido no centro do inconsciente (id), mas, frente à cena, fica para mim a pergunta: onde está a pessoa?

Foi assim que pude perceber a importância de fixar o olhar apenas na incisão cirúrgica e deixei, por um tempo, de olhar para o ‘rapaz-corpo’ – que ficava em seu rosto.

A intervenção cirúrgica, aos meus olhos, era um momento mágico em que se revelava o que eu vinha estudando e vendo nos livros em forma de desenho, ou fotografias. Nada se comparava à perfeição do que eu via. Fixei meu olhar como uma criança que observa o mundo pela primeira vez. Engraçado, porque eu tinha pressa e mal conseguia esperar que chegassem logo à fratura em si.

Todos os meus sentidos estavam em alerta. Eu estava atenta aos mínimos sinais, sons e movimentos. Ao mesmo tempo em que não tirava os olhos da mandíbula, podia perceber o anestesista e o enfermeiro atrás de mim. Também, conseguia captar toda a sala de cirurgia, como se a visse de cima. Senti como se estivesse no centro de uma Catedral, sob as mãos de Deus.

Reverencio a beleza do momento. Jamais desejei tal profissão e nem a desejo agora, mas não posso deixar de e render minha homenagem aos cirurgiões.

Qualquer atitude do homem terá efeito no próprio homem.

A equipe, composta por dois cirurgiões-dentistas residentes e o cirurgião-dentista responsável, mantinha uma postura de respeito entre si. Quando chegaram à fratura, compenetrados, discutiam formas de intervenção. Todos conjeturavam a melhor solução para o problema e, juntos, decidiram.

O chefe da equipe mostrou-me, pacientemente, todos os detalhes de tecidos e ossos. Explicou sobre o tipo de fratura, o quê e como iriam fazer e as perspectivas do resultado. Eu absorvia cada palavra e cada movimento. Revelava-se para mim, algo que eu jamais compreenderia se não participasse desse momento. Ver a mandíbula e a parte fraturada trouxe questionamentos. Sem essas técnicas e essas possibilidades, como um pedaço de osso poderia ficar solto no rosto humano?    Pela incorporação que temos de cirurgias, nunca tinha pensado nisso.

Neste ínterim, entendi o que significa não se envolver com o paciente. Só quando consegui dissociar o ‘corpo’ do ‘rapaz’, é que me livrei da angústia e pude ficar atenta à intervenção cirúrgica. Sem dúvida, este é o momento em que não pode e não deve haver envolvimento profissional-paciente. A gestalt se faz presente em seu mais puro conceito de figura-fundo. O rapaz que era figura até ser anestesiado, passa a ser fundo e a figura é a sua mandíbula, o campo cirúrgico, onde deve se concentrar todas as atenções. O controle da pessoa, fica por conta do anestesista, que o faz através da máquina. Onde está a pessoa?

De fato, este é o momento da técnica e qualquer envolvimento com a pessoa poderá ser prejudicial ao trabalho técnico. Quando aquele jovem voltasse da anestesia, voltaria a ser. A pessoa estaria de volta e, aí, todas as atenções devem passar para ele também.

Onde está a pessoa?

No centro cirúrgico, o que pude observar foi um momento de profundo respeito entre todos os profissionais, inclusive com o ‘jovem’ corpo inerte a ser trabalhado. Pode ser que, ao término da cirurgia, quando as tensões diminuem, brincadeiras, cantorias, assuntos corriqueiros etc. venham à tona. Por que não? afinal, depois de tanta tensão, há que se relaxar. Caso contrário, impossível obter equilíbrio.

Enquanto estava por lá, andei pelos corredores e vi outras cirurgias. A mesma cena se repetia nas outras salas e o burburinho, quando começava, era porque a cirurgia chegava ao fim.

Aqui, faço um paralelo, mas, onde a sensação de ‘catedral’ não acontece. Nos atendimentos odontológicos rotineiros, principalmente, naqueles que ocorrem em ambulatórios, nem sempre o paciente recebe esse mesmo respeito por parte do profissional. Vejo, quando os atendimentos são feitos em duplas, que os colegas conversam, “sobre” o paciente – não dele, mas ‘por cima’ dele – e sobre os mais variados e, muitas vezes, inoportunos assuntos. Pior ainda quando o assunto é o paciente – o próprio ou outros.

É um momento cirúrgico, mas o cirurgião-dentista não está em postura de respeito ao paciente, mesmo quando atento à técnica e atuando ‘dentro da boca’. Não se pode esquecer que, neste caso, o paciente é figura, mesmo quando passa a ser fundo. Explico: o paciente é fundo porque a atenção do CD está no dente, ou outra parte da boca, que é a figura; porém, o paciente está lá, ativo e participativo. Atento aos movimentos, sons e todo o resto. Ele está lá! Mesmo que esteja configurado como fundo (desfocado), o CD jamais pode deixar de se dirigir a ele e fazer prevalecer a sensação de que ele – o paciente-pessoa – está em primeiro lugar.

Na cadeira odontológica, há o olhar do paciente que o faz presente e exige preocupação e envolvimento. Na mesa de cirurgia, esse olhar não se faz presente e exige preocupação, mas, de forma alguma, envolvimento.

Nas cirurgias em assoalho de órbita, o olho – não o olhar – está presente e a atuação do CD fica mais difícil. Aquele olho aberto, mesmo que nada veja, não permite que o paciente saia de cena e, esse atuar no indivíduo olhando e ‘sendo olhado’ por ele, carrega envolvimento e torna a cirurgia perturbadora, exigindo maior grau de atenção e concentração.

Afinal, onde está a pessoa?

De qualquer forma, se o não envolvimento com o paciente couber em algum lugar, este é o momento: quando o paciente é, mas não está.


*Elaine Gomes dos Reis Alves – Psicóloga do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais - CAPE-FOUSP; mestre em Odontologia pela FOUSP; doutoranda pelo IPUSP; membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP; autora do livro "Profissionais de Saúde: Vivendo e convivendo com HIV/aids", Ed. Santos; professora colaboradora da FOUSP e professora da UNIP/SP – Disciplina Psicologia e Odontologia  E-mail: egralves@usp.br

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