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Ano VI - Nº 83 - Ab ril de 2004

Representações psicológicas do campo de trabalho do cirurgião-dentista: face, boca, língua e dentes

Elaine Gomes dos Reis Alves*

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 A Odontologia, por envolver conhecimentos e técnicas de aplicação e atuação, é uma profissão principalmente tecnicista. Por outro lado, nenhum outro profissional se aproxima tanto da pessoa quanto o dentista.

A proximidade das faces e colos é uma constante para essa profissão, e o paciente sempre está sentado ou deitado na cadeira, enquanto o CD está sobre ele. Há uma relação subjetiva de dominador-dominado e, por parte do paciente, a postura é de submissão.

Além de face e olhos estarem muito próximos, há um contato direto de mãos na face, mãos na boca e mãos “dentro” da boca, que mexem em um espaço de milímetros quadrados representado pelos dentes. Embora para o profissional, possa parecer apenas um procedimento técnico simples, vale reconhecer as representações que esse “espaço de trabalho do CD” tem para a pessoa.

Em primeiro lugar todo ser humano ocupa um espaço, em metros quadrados, que pertence a ele e, apenas pessoas muito próximas têm permissão para adentrar neste espaço e se aproximar pele-a-pele. Basta pensar para quantas pessoas nos abrimos para um “abraço”.

O CD invade este espaço sem pedir licença, porque já é de conhecimento público que essa é a sua atuação, mas, esse conhecimento prévio não retira a sensação de “invasão”.

O campo de trabalho do CD é o rosto, a face. Ora, essa face significa, “simplesmente”, a nossa identidade, aquele que “eu sou”, o self. É com ela que nos apresentamos ao mundo e pela qual somos identificados. A fotografia do nosso rosto está em todo documento de identidade. Quantas pessoas estão satisfeitas com essa foto?

Quando o dentista se aproxima desse rosto não há como fugir da sensação de vergonha, tanto, que há desvio de olhares quando estes se encontram. Os olhos dão sentido à comunicação, trazendo à luz a expressão de sentimentos.

A anestesia interfere na harmonia desse rosto, trazendo uma sensação de desconforto. O que não dizer da iatrogenia? Um ato de imperícia, um “erro odontológico”, pode causar até mesmo uma paralisia facial, ou seja, pode alterar nossa identidade. Pode também haver mutilação causada por doenças ou traumas. É sobre este espaço, de extrema importância para o nosso reconhecimento, que o dentista trabalha.

O local de atuação direta do dentista é a boca., que é invadida por suas mãos e instrumentos. A boca, além de ser importante para a nutrição e comunicação, está diretamente ligada  aos prazeres, às paixões e ao amor (lembremos do beijo dos amantes). Ela é a própria representação da sensualidade e do desejo; por suas formas, cheiros e movimentos, é o principal link com a sexualidade. A coloração e a mucosa da boca, são as mesmas dos órgãos genitais. A boca tem lábios! As mesmas  DSTs que afetam a boca (herpes, candidíase, HPV etc.), afetam também os genitais. Não há uma única sensação, emoção ou sentimento que não passe pela boca. Alegrias, tristezas, sustos, raivas, preocupações etc... podem nos fazer salivar, engolir em seco, travar os dentes, provocar sensação de boca seca, entre outros.

A língua é o órgão de maior sensibilidade do corpo humano e de vital importância para as sensações de prazer. Se uma pequena afta pode ser sentida como um “vulcão”, o que dizer então de uma mucosite ou uma leucoplasia pilosa? A língua anestesiada dificulta a fala e a alimentação, além do descontrole da salivação (a pessoa pode “babar”). Sem dúvida, qualquer que seja a patologia ou mutilação na língua, estará influenciando diretamente nos prazeres da vida.

E os dentes? Ah, imagine-se perdendo os incisivos centrais superiores... Intimida, fragiliza, enfraquece!

Os dentes representam a força física e psíquica. Os bebês não têm dentes, são frágeis e necessitam de cuidados. As crianças vão ficando mais fortes e atuantes no mundo à medida que os dentes decíduos erupcionam. Por volta dos 6 anos, estão prontas para enfrentarem, sozinhas, outros ambientes. Durante o período da dentição mista, elas vão se fortalecendo ainda mais. Na adolescência, com os dentes permanentes, sentem-se fortes para enfrentar o mundo. Por volta de 21 anos, a dentição permanente está completa e o indivíduo está pleno para tomar decisões, escolher profissões, encontrar seus pares e iniciar o período de vida construtiva. Na velhice, infelizmente, a maioria das pessoas ainda perde os dentes e, ao mesmo tempo, vão enfraquecendo física e psiquicamente. Ao longo do processo do desenvolvimento, as pessoas podem perder os dentes por traumas ou doenças e vão se tornando mais fracas.

A estética dentária influi na escolha de parceiros afetivos, na seleção de funcionários e na escolha de amigos. Assim, a representação psicológica dos dentes é a força, a virilidade, a capacidade do fazer. O dente corta, rasga, dilacera e tritura: é poderoso!

Enquanto isso, o sorriso está ligado à alegria, à simpatia, ao carisma, à bondade, à felicidade, à estética e à beleza. O sorriso aproxima as pessoas.

Este é o rosto humano, que se sobressai no conjunto harmonioso do corpo, influenciando e/ou interferindo diretamente nos relacionamentos interpessoais. O rosto e suas expressões têm a capacidade de denunciar nossos sentimentos e emoções.

Parece importante que os dentistas estejam informados que, quando se aproximam de seu campo de trabalho e iniciam seus procedimentos técnicos, eles estão, “simplesmente”, sobre tudo isso: próximos e sobre a pessoa em sua totalidade psicológica. Essa é a diferença que tanto intimida, todos nós, quando nos tornamos pacientes odontológicos. Essa é a diferença da a Odontologia sobre outras profissões.


*Elaine Gomes dos Reis Alves – Psicóloga do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais - CAPE-FOUSP; mestre em Odontologia pela FOUSP; doutoranda pelo IPUSP; membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP; autora do livro "Profissionais de Saúde: Vivendo e convivendo com HIV/aids", Ed. Santos; professora colaboradora da FOUSP e professora da UNIP/SP – Disciplina Psicologia e Odontologia  E-mail: egralves@usp.br

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