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Ano VI - Nº 84 - Maio de 2004

O cenário do consultório odontológico e seus atores: reflexão

Elaine Gomes dos Reis Alves*

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Embora a maioria dos trabalhos de Psicologia em Odontologia diga respeito aos relacionamentos, parece que esse é um assunto ainda pouco elaborado. É interessante quando falamos em pouco elaborado, pois RELACIONAMENTO faz parte da vida do ser humano e está presente sempre que duas pessoas se encontram, tornando esse encontro um momento único de aprendizagem e crescimento psicológico e espiritual, com reflexos para a vida de cada pessoa. Todo encontro provoca mudanças.

Em Odontologia, essa é uma questão bastante delicada e interessante, fazendo-nos refletir no que significa relacionamento paciente-profissional. Os relacionamentos usuais entre as pessoas se baseiam geralmente na redução do outro a um desígnio de posse e de uso e na ausência de qualquer estupor e comoção pela existência do outro.

Observemos...

A secretaria abre a porta, cumprimenta, identifica o sujeito e pede para aguardar. Após um breve (?) instante o cirurgião-dentista chama o paciente e, com um rápido cumprimento e algumas perguntas, é possível assistir a seguinte cena:

- um sujeito saudável,  todo de branco (inclusive sapatos), avental, luvas, máscaras e óculos, em pé ou sentado sobre um outro sujeito (criança, jovem, adulto, velho), nem sempre saudável, deitado em uma cadeira, com um babador, guardanapo na mão, boca aberta, sem saber o que fazer com os pés e, em muitas vezes, apertando com as mãos, os braços da cadeira.

O sujeito que está em pé ou sentado, tem seus olhos e atenção voltados para uma cavidade aberta, cheia de dentes, uma língua (quase sempre atrapalhando), mucosas vermelhas e sempre que possível, uma quantidade satisfatória de sangue. Nessa cavidade imensa (que às vezes diminui e ele diz: “abre mais!”), é possível introduzir suas mãos hábeis,  instrumentos delicados e com movimentos precisos, utilizar uma agulha anestésica, cortar mucosas, esculpir dentes, aliviar uma dor e produzir outras. Se for seu dia de azar, fará intervenções cirúrgicas com cortes e sangue, utilizando vários instrumentos. Ficará cansado, mas terá aprendido muito mais e estará com mais prática na próxima vez. Porém, se for seu dia de sorte, fará apenas algumas profilaxias tranqüilas e estará bem no final do expediente.

O sujeito que está deitado, tem sobre seus olhos uma luz branca. Livrando-se dela, tem seus olhos voltados para... vejamos: à esquerda, provavelmente uma parede branca, uma mesinha com aparelhos para serem introduzidos em sua boca, um que suga, outro que joga ar e água, que às vezes escorre pelo queixo e nem sempre é possível limpar sem atrapalhar o dentista. Há também aquela “cubinha” que todo mundo cospe!; à frente, uma parede branca ou uma janela (quem sabe uma porta!); acima, um teto branco e uma luminária; à direita, outra parede branca, um armário branco cheio de portas e gavetinhas (como dentistas gostam de gavetinhas!), todas elas com pecinhas, bolinhas e pontinhas. Há também uma mesinha, com alguns instrumentos todos cheios de pontas, com exceção do espelhinho; ainda à direita e muito próximo, uma cabeça com um par de olhos atrás de um  óculos (quando não são dois) atentos em sua boca, um gorro, uma máscara, duas mãos imensas, introduzindo objetos de aço, grossos ou finos, mais ou menos barulhentos, mas sempre frios e pontiagudos, em sua boca estressadamente aberta com, no máximo e se for grande, 4cm de diâmetro. Atrás, o que será que tem atrás? Uma incógnita, talvez uma parede branca. Em algum lugar da sala há um aparelho de RX... Se for seu dia de azar, terá que se submeter a uma cirurgia, com anestesia, instrumentos cortantes e sangue ou uma endodontia, onde se fica muito tempo com a boca aberta (que acaba doendo e cansando); se for seu dia comum, terá que se submeter à remoção de cáries ou afins, mas, se for seu dia de sorte, se submeterá apenas a uma profilaxia, que apesar do desconforto, até é gostoso. De qualquer forma terá que se submeter .

O sujeito que está em pé ou sentado, tem seus olhos e atenção voltados para a cavidade oral (talvez sem pensamentos). O que está deitado na cadeira, não sabe onde parar seu olhar que corre pela sala, às vezes fecha os olhos, em alguns momentos olha nos olhos do dentista; sua atenção está toda concentrada em sua boca e seu pensamento pode se perder em suas angústias, ansiedades e desconforto.

Quando termina aquele atendimento, o sujeito em pé ou sentado, retira o “babador” do peito do paciente, arruma a cadeira e diz que acabou, quase sempre pergunta se está tudo bem, retirando sua máscara e luvas. O sujeito que está sentado, levanta-se sem graça, agradecendo, se despedindo e se retirando. Na sala ao lado, faz o pagamento à secretaria e marca o retorno.

O dentista está satisfeito, realizou um bom trabalho e sabe que ajudou o paciente.

O paciente está aliviado, satisfeito. Sabe que o dentista realizou um bom trabalho. Há um certo desconforto na boca, uma sensação estranha no peito. A dor pode vir depois e o medo poderá surgir antes da próxima consulta... Ainda bem que o paciente tem um bom relacionamento com o dentista...


*Elaine Gomes dos Reis Alves – Psicóloga do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais - CAPE-FOUSP; mestre em Odontologia pela FOUSP; doutoranda pelo IPUSP; membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP; autora do livro "Profissionais de Saúde: Vivendo e convivendo com HIV/aids", Ed. Santos; professora colaboradora da FOUSP e professora da UNIP/SP – Disciplina Psicologia e Odontologia  E-mail: egralves@usp.br

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