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Ano VI - Nº 89 - Agosto de 2004

Deformidade facial adquirida

Elaine Gomes dos Reis Alves*

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“Se você está sozinho no quarto, fique à vontade e vá para a frente do espelho. Esta é a hora da verdade. Muito provavelmente você não está contente com o que vê.”     (Buchalla, Veja, 28.11. 2001).

A frase acima inicia mais uma das tantas reportagens sobre a relevância da beleza física. Mais um texto sobre a infelicidade das pessoas que têm pneuzinhos, abdome flácido, braço fino etc. e como a malhação nas academias (“centros de narcisismo explícito”) podem resolver esses problemas que não combinam com a imagem que gostariam de ter.

O quê dizer então das lesões físicas – transformadas em deformidades reais ou psicológicas – adquiridas de um momento para o outro, após um acidente? Lesões que academia nenhuma pode resolver e, muitas vezes, nem mesmo um excelente cirurgião plástico!

Se as pessoas podem se tornar infelizes porque estão abaixo ou acima do peso idealizado, o quê dizer quando as distâncias do padrão de beleza, ou simplesmente, do padrão de normalidade são ainda maiores? Seria uma simples conseqüência da modernidade não fosse a força direta que exerce sobre o comportamento humano e sobre a psiquê do indivíduo, podendo levá-lo a quadros patológicos graves como depressão, síndrome do pânico, dificuldade de socialização, crises de angústia e ansiedade entre outros. Quadros tão desconsiderados socialmente e ainda negados quanto a sua seriedade e importância para a felicidade do ser humano.

Obviamente o progresso trouxe muitos benefícios como facilidades graças aos diferentes tipos de transportes; várias possibilidades e modalidades de lazer, inúmeras facilidades domésticas etc. Porém, tais benefícios vêm também associados ao aumento da violência social-urbana e, nestes acidentes ou incidentes, a face é a parte do corpo humano mais afetada.

A modernidade veio acompanhada, principalmente no final do Séc. XX, da valorização da beleza física, instigando as pessoas a se enquadrarem no padrão de beleza ‘pré-estabelecido’ e veiculado pela mídia. Padrão praticamente inacessível à maioria das pessoas!

Neste contexto, o rosto se sobressai no conjunto harmonioso do indivíduo, influenciando diretamente nos relacionamentos interpessoais, até porque a face - primeiro e mais importante estímulo visual nos relacionamentos interpessoais –, é o veículo pelo qual nos apresentamos à sociedade, representando nossa própria identidade. 

Variações no tamanho, beleza e características físicas são importantes variáveis causais do comportamento e as lesões sediadas no complexo maxilomandibular são as que provocam opiniões mais controversas, uma vez que essa região desempenha funções importantes como mastigação (nutrição) e fonação (comunicação), além do destaque na estética facial.

A importância e particularidade da anatomia da mandíbula que envolve ossos, articulação temporomandibular, relações da ATM, vasos e nervos, articulado dentário, estrutura e linhas de resistência, músculos mastigadores e os movimentos da mandíbula é inquestionável e, portanto, a fratura desse osso necessita  estudo e conduta particular, absolutamente incomparável à fraturas de outros ossos. Nas fraturas localizadas na face as mais freqüentes são de mandíbula e nariz e, em muitos casos, a vítima perde o olho ou olhos.

O período pós-trauma traz grandes sofrimentos físicos e psíquicos para o paciente, que além da dor crônica, pode ainda sofrer com graves seqüelas no complexo maxilomandibular. Após o período de convalescença o paciente pode estar apto fisicamente para suas atividades de rotina, mas nem sempre estará apto psicologicamente para exercê-las uma vez que as alterações estéticas e funcionais – que demandam tratamento especializado e, às vezes, longos – podem influenciar no comportamento do paciente que, muitas vezes, não está pronto para expor suas lesões e dificuldades.

Pela gravidade e complexidade, algumas lesões deixam seqüelas sediadas no terço médio da face que podem interferir na fonação, deglutição, respiração, visão, perdas dentárias e/ou orbitárias e estruturas ósseas, cicatrização inadequada e atrofias ou perdas de tecidos moles, necessitando de acompanhamento multidisciplinar com especialistas em neurocirurgia e cirurgia craniofacial. A necessidade da urgência no atendimento do paciente politraumatizado pode resultar em erros grosseiros de diagnóstico e conduta que podem levar a seqüelas graves ou ao óbito e quanto mais caótico for este atendimento, mais freqüentes tornam-se os erros.

A representação da morte em vida, principalmente sobre as experiências que nos fazem pensar na morte, é acompanhada de atributos como dor, interrupção, ruptura, desconhecido e tristeza (ex.: doenças, separações ou situações-limite com muita dor e sofrimento). Podemos inferir que lesões na face adquiridas pós-trauma estão acompanhadas da experiência de perda. Perda da identidade, do referencial de vida: profissional, pessoal, social...

A perda freqüentemente pode acarretar na longa duração do pesar e em dificuldades de recuperação de seus efeitos com conseqüências adversas para o funcionamento da personalidade. Assim, para a pessoa que sofreu a perda - portanto enlutada - somente a volta do objeto perdido pode trazer conforto e se o que lhe é oferecido fica aquém desse desejo, é recebido quase como um insulto, pois a perda é uma experiência dolorosa e aflitiva, é penosa para aquele que a experimenta e para aquele que a observa.

Importante considerar a exposição acima ao ouvir as queixas sobre condutas e tratamentos recebidos pelos pacientes portadores de traumatismos faciais e viabilizar o levantamento de outras necessidades não contempladas pelos profissionais de saúde responsáveis pelos atendimentos de emergência e que interferem no resultado do tratamento, retardando ou não a condição física e psíquica do paciente às suas rotinas diárias.

Dentre os pacientes com deformidade facial adquirida pós-trauma bucomaxilo pode-se observar que, no atendimento de emergência, a maioria necessita de internação. As queixas são sobre os problemas no atendimento (falta de dentistas no pronto-socorro, falta de material adequado, demora etc...); comentários descuidados e falta de esclarecimentos por parte da equipe de saúde; resultados dos tratamentos mediatos e imediatos;  dor; redução/contenção inadequada das fraturas e dores e desconfortos que persistem por longo período após alta.

O rosto e a imagem corporal são elementos importantes para a formação do auto-conceito e alterações abruptas podem trazer traumas psicológicos difíceis de serem enfrentados. Todos os pacientes com deformidade facial relatam angústia, sensação de perda de identidade, medo do futuro e medo de não voltar a ser como eram antes do acidente.


*Elaine Gomes dos Reis Alves – Psicóloga do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais - CAPE-FOUSP; mestre em Odontologia pela FOUSP; doutoranda pelo IPUSP; membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP; autora do livro "Profissionais de Saúde: Vivendo e convivendo com HIV/aids", Ed. Santos; professora colaboradora da FOUSP e professora da UNIP/SP – Disciplina Psicologia e Odontologia  E-mail: egralves@usp.b

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