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Ano VI - Nº 92 - Novembro de 2004
 

CONSTRUÇÃO DO SUJEITO

Elaine Gomes dos Reis Alves*

 

No artigo anterior falamos do atual paradigma da Odontologia tão popularizado por charges, cartoons, mídia e ditos populares. O fato de a charge ser uma representação concreta do pensamento coletivo - o artista apreende essa informação e coloca no papel aquilo que, de variadas formas, a maioria das pessoas está falando e que, pela identificação, leva à graça, ao riso. Ou seja, quando a charge surge, o senso comum já está estabelecido – somado ao fato de que elas são muito apreciadas, trocadas e colecionadas por alunos e profissionais da área, despertou o interesse em pesquisar as mensagens implícitas em charges e cartoons (vide Alves & Antunes, 2000**).

Ora, paradigmas podem e devem ser mudados e, nesse caso, convido o leitor a um turismo pelo curso de graduação para que possamos pensar em possibilidades.

Importante lembrar que a Odontologia era rudimentarmente praticada pelos barbeiros, em praças públicas, procurados para aparar barbas, cabelos, bigodes e “arrancar dente”. Ao longo da história, extrair dentes (depois denominado exodontia) também foi um procedimento bastante utilizado como forma de tortura.

Obviamente o foco do curso de Odontologia está na boca e, por isso, já surge como uma medicina fragmentada. Durante aproximadamente 5 anos o aluno estuda essa região do corpo humano e se especializa no assunto. Começa estudando mucosas e dentes como parte de “alguém” e à medida que o curso vai se tornando mais interessante, fica também mais distante da “pessoa”. Disciplinas técnicas, ligadas ao conhecimento da boca, ao aparelho estomatognático e aos materiais dentários, são valorizadas e NÃO PODERIA SER DIFERENTE (!), o problema é que as disciplinas humanas, como ciências sociais, psicologia, filosofia, serviço social etc.,  voltadas para o conhecimento da pessoa, do ser humano, da sociedade e suas necessidades e expectativas, têm carga horária mínima – e insuficiente – e são praticamente desprezadas pelos programas das escolas de graduação, pelos professores e alunos de Odontologia, embora compreendam sua importância. Infelizmente, isso é reforçado pela falta de profissionais adequadamente preparados para ministrar tais disciplinas, portanto, sem condições de direcioná-las à Odontologia e torná-las agradável, interessante e estimulante aos alunos.

Assim, terminada a graduação, temos cirurgiões-dentistas habilitados, capacitados e especializados em bocas e dentes. Se bons profissionais, sabem muito bem o que, quando e como fazer e fazem bem! Cirurgiões-dentistas são verdadeiros artistas, que com mãos hábeis, zelosas e precisas são capazes de lapidar, modelar, esculpir; são senhores da medicina – médicos da boca – capazes de tratar, curar e cuidar, tudo isso, em uma área máxima de 1 cm3, tendo como pano de fundo, o rosto.

Seria perfeito se o rosto não fosse o “pano-de-fundo”! Esse profissional construiu o seu sujeito através da boca e treinou sua técnica em cabeças de plástico que não salivam, não respiram, não transpiram, não reclamam, não fecham a boca, não travam os dentes, não tem emoções e sentimentos e, principalmente, não olham. Essas cabeças, chamadas “modelo”, são presas por uma peça de metal e constantemente caem no chão, rolam para lá e para cá e são displicentemente recolocadas no lugar, entre frustração e raiva pelo estudo prejudicado, ou entre brincadeiras  (o que é, em si, saudável). O problema é que esse sujeito construído não tem nada em comum com aquela pessoa que será atendida pelo futuro cirurgião-dentista. É com essa pessoa (da qual falaremos no próximo artigo) dotada de personalidade, vontade, sensações e emoções que o nosso “cirurgião-artista-dentista” não é preparado para lidar.
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** ALVES, E.G.R; ANTUNES, J.L.P.  Levando o humor a sério: representação da prática odontológica no imaginário social através de charges e histórias em quadrinhos.  Odontologia & Sociedade, v. 2, nº1/2, 40-44, 2000.


*Elaine Gomes dos Reis Alves – Psicóloga do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais - CAPE-FOUSP; mestre em Odontologia pela FOUSP; doutoranda pelo IPUSP; membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP; autora do livro "Profissionais de Saúde: Vivendo e convivendo com HIV/aids", Ed. Santos; professora colaboradora da FOUSP e professora da UNIP/SP – Disciplina Psicologia e Odontologia  E-mail: egralves@usp.br


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