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Ano VII - Nº 94 - Janeiro de 2005
 

O papel da dor na pessoa versus o papel do profissional de saúde na dor da pessoa

Elaine Gomes dos Reis Alves*

 

Trabalhar com a dor e desconforto e uma das peculiaridades da Odontologia uma vez que o dentista é procurado para aliviar determinada dor, ou para algum tipo de intervenção que por ser efetuada na região da boca, acaba por provocar dor.

Embora a dor seja reconhecida, há pouca atenção a esse fenômeno e, por conseqüência, pouca compreensão sobre ela. O fenômeno da dor exerce papel de grande importância no ser humano e embora os limiares de sensação e percepção de dor tenham semelhança universal entre os indivíduos, os limiares de tolerância variam de pessoa para pessoa uma vez que depende de personalidade, bagagem cultural, pensamentos, emoções e experiências prévias.

A dor aguda  tem a função de alarme, indica lesões e costuma estar acompanhada de alterações neurovegetativas como sudorese, dilatação da pupila e taquicardia e tende a desaparecer após o tratamento correto. A dor crônica  é aquela que persiste e deixa de exercer a função biológica de alarme, originando alterações fisiológicas, comportamentais e sociais. Esta representa um dos problemas de saúde mais onerosos da sociedade e é considerada uma doença que deixa, como seqüelas, deficiências, limitações ou incapacitações graves, trazendo em si a idéia de uma morte, enquanto perda ou diminuição de funções, dificuldade para realização de atividades ou interrupção da carreira.

A International Association for the Study of Pain, em 1979, conceituou a dor como  “uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a lesões reais ou potenciais, ou descritas em termos de tais lesões [...] a dor é sempre subjetiva. Cada indivíduo aprende a utilizar este termo por meio de suas experiências prévias.”.

Em 1991, Cicely Sounders, conceitua a DOR TOTAL como a dimensão física, espiritual,  social, financeira, interpessoal, familiar e mental,. Dessa forma a dor deixa de ser vista como um mero sintoma e se torna um fenômeno que faz parte da história do indivíduo.  Essa história influencia na percepção da dor e é influenciada por ela.  Ou seja, é necessário que o profissional de saúde não saia em busca da história da dor, mas sim,  da dor na história da pessoa, em uma tentativa de resgate da história do paciente e de sua dignidade. A dor é somente o resultado de uma longa lista de experiências vividas pela pessoa e que de alguma forma se manifesta como dor. Não se trata de qualquer dor, mas aquela dor, daquela pessoa.

A percepção da dor é um mecanismo complexo, determinado por muitos fatores,  influências ambientais e múltiplas variáveis psicológicas. É um sintoma individual e subjetivo que só pode ser compartilhado a partir do relato de quem a sente. Acreditar na queixa do paciente e reconhecer o efeito devastador que a dor possa ter sobre este e seus familiares são pontos fundamentais, não somente para avaliar o quadro álgico, mas, também, para um manejo adequado. O “quanto de dor” e o “como é essa dor” dependem das experiências prévias, do quando e como essas experiências são lembradas, da capacidade de compreender suas causas e conseqüências, do meio em que o indivíduo está inserido, assim como de sua capacidade de comunicar-se com os membros da equipe de saúde. Outro fator de suma relevância é a disponibilidade dessa equipe de ouvir e acolher toda essa comunicação (Kobayashi, 2002).

Dessa forma, o papel da dor na pessoa pode ser de alarme, quando aguda, indicando que há algo que precisa e pode ser tratado. Também pode ser de socorro, se crônica, indicando a mesma necessidade de cuidado, atenção e tratamento.

O papel do profissional de saúde na dor da pessoa é, em primeiro lugar, respeitar a queixa. NÃO EXISTE DOR PSICOLÓGICA, se a pessoa se queixa de dor é por que está sentindo e essa dor precisa ser ouvida, cuidada e tratada. Para que se possa ter noção da intensidade da dor, basta pedir à pessoa que diga de “Zero a Dez” quanto é a sua dor. A pessoa sempre consegue transmitir o seu parâmetro e o profissional tem obrigação de acreditar e cuidar. A ação de cuidado só acontece quando o olhar é capaz de atingir o “todo”.


*Elaine Gomes dos Reis Alves – Psicóloga do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais - CAPE-FOUSP; mestre em Odontologia pela FOUSP; doutoranda pelo IPUSP; membro do Comitê de Ética em Pesquisa da FOUSP; autora do livro "Profissionais de Saúde: Vivendo e convivendo com HIV/aids", Ed. Santos; professora colaboradora da FOUSP e professora da UNIP/SP – Disciplina Psicologia e Odontologia  E-mail: egralves@usp.br


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