Ano XVIII nº 214 -

Edição 214 - 26/08/2015

D E B A T E  

Amálgama de prata no Brasil:
CD, faça valer a voz da Odontologia

 

Mais de 72 mil leitores do Jornal Odonto viram a notícia sobre o PL 654/2015 que proíbe o uso de amálgama de prata no Brasil, com posts contra e a favor da medida que está em tramitação na Câmara Federal. Para embasar esta discussão,  foram ouvidos especialistas e cirurgiões-dentistas. São eles os professores Paulo Capel Narvai, Cláudio Fernandes, Sílvio Cecchetto, Maine Skelton, Rodrigo Bueno de Moraes e Rui Andrade Dammenhain. Nesta matéria você encontrará também arquivos sobre o Simpósio Amálgama Dental 2014  e mais um artigo publicado pelo prof. José Antonio Mondelli, que darão subsídios confiáveis para  o CD formar sua opinião sob bases sólidas, manifestar-se e tomar para si a voz da odontologia nesta questão.  Veja mais e participe.

       

Mercúrio: agora, a Câmara dos Deputados

Prof. Dr. Paulo Capel Narvai

Nenhuma entidade nacional odontológica pediu. Nenhuma sociedade científica de saúde pública pediu. Nenhuma organização não governamental com atuação em questões ambientais e credibilidade nacional pediu. Nenhuma entidade da área de saneamento ou saúde ambiental pediu. O SUS não pediu. Mas a Câmara dos Deputados registrou um projeto de lei (PL), sob número 654/15, apresentado pelo deputado Luiz Nishimori (PR do Paraná), que proíbe a utilização de amálgama para restauração dentária em todo o território nacional.

Quem pediu este PL? Não se sabe. Na justificação que acompanha o PL o deputado Nishimori afirma que o apresentou à Câmara “em homenagem ao nobre deputado Anthony Garotinho”. Para compreender a motivação do deputado paranaense para apresentar o PL que ninguém pediu, busquei saber de quem se trata.

Prof. Dr. Paulo Capel Narvai

Cirurgião-dentista

Especialista, Mestre, Doutor, Livre Docente e Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)

Ele é graduado em Ciências Contábeis pela Universidade Estadual de Maringá (1981), e fez um curso no Japão, na High School Kochi Shoguio. Fez sua carreira política no PSDB do Paraná e seu currículo não registra uma única atividade relacionada com o setor saúde. Nada consta sobre saúde bucal. O deputado Nishimori tem defendido os interesses do setor têxtil e de vestuário e do agronegócio. Uma de suas emendas a um PL que tramita na Câmara pede benefícios previdenciários e tributários para esses segmentos (PL-863-A/2015). Segundo o parlamentar “a indústria, o agronegócio e os empresários brasileiros passam atualmente por grandes desafios. A majoração com mais carga tributária dessas empresas será altamente prejudicial, podendo gerar desempregos e instabilidade econômica. As empresas do Paraná não vão aguentar mais aumento de impostos. É necessário levar em consideração que com o aumento da tributação irá dificultar a manutenção das empresas no Brasil”.

Não está muito claro o que levou Nishimori a apresentar à Câmara o PL-654/15, ocupando-se de mercúrio de uso odontológico, embora ele assegure, na justificação do seu PL que sua aprovação seria “de relevante importância para o ordenamento jurídico nacional” (sic). Quem defende o agronegócio, principal responsável por criminosa contaminação do solo, rios e lagos não tem, propriamente, um perfil parlamentar que se volte para a defesa do ambiente e que, portanto, justifique alguma preocupação com o uso do mercúrio no País, nos termos em que os profissionais da odontologia o fazem.

Tão importante quanto impedir que o PL-654/15 siga tramitando na Câmara (em 12 de agosto a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, da Câmara, o aprovou no seu âmbito), é compreender as motivações do parlamentar do PR do Paraná, uma vez que ao que se saiba ele ignora por completo os problemas do “mundo do trabalho odontológico” e aspectos a ele relacionados.

Consta do PL que o seu autor pretende “proteger a saúde dos profissionais da área odontológica e a dos pacientes, bem como o meio ambiente”. Este motivo revela enorme desconhecimento sobre o modo como o mercúrio é utilizado atualmente na prática odontológica, no Brasil e em outros países. Chega ao cúmulo do absurdo de afirmar que uma alternativa ao seu emprego em procedimentos odontológicos é o tratamento restaurador atraumático (ART). O parlamentar confunde uma técnica de restauração dentária com um material restaurador. É lamentável que a Câmara se ocupe de um PL com argumento tão frágil a justificá-lo.

O parlamentar incumbido de relatar o PL na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, foi deputado Rodrigo Martins, do PSB do Piauí. Cirurgião-Dentista, graduado em 2004 pela Faculdade de Saúde, Ciências Humanas e Tecnológicas do Piauí, com especialização em Periodontia, foi mestrando na área de Radiologia Dento-Facial e Estomatologia na Faculdade São Leopoldo Mandic. Presidiu o sindicato dos odontologistas do Piauí no período de 2006 a 2008. Em 2013, o deputado Martins foi condecorado com a Medalha de Honra ao Mérito Odontológico pelo Conselho Regional de Odontologia do Piauí. Sua formação e atividades classistas não o impediram, porém, de votar favoravelmente à aprovação do PL-654/15 e afirmar, em seu parecer, que “o mercúrio, ao ser utilizado na separação do ouro em garimpos, já provocou grandes prejuízos ambientais, como a contaminação dos leitos dos rios, a degradação do solo e da água e a contaminação dos peixes e dos seres humanos”. Ele admite, contudo, que o mercúrio da amálgama dentária “não seja a responsável por emissões exageradas de resíduos, nem que eles representem um perigo particularmente grave para o meio ambiente”. Não obstante, e sem fundamentar seu parecer em nenhum argumento cientificamente válido e consistente, o deputado Martins considerou, provavelmente com base apenas em sua opinião sobre o tema, que “o melhor a fazer é evitar o uso do mercúrio em amálgamas dentais”.

Com uma intenção cândida e um parecer de relator cujo conteúdo evidencia total desconexão com o objeto do PL, a Câmara está na iminência de aprovar mais um PL cujos benefícios à população brasileira são desconhecidos, mas cujos prejuízos aos profissionais de odontologia e às pessoas que precisam desses profissionais podem ser antevistos com muita clareza. Uma lástima. Não há dúvida de que o melhor a fazer é arquivar o PL-654/15, por não ter sido solicitado por nenhuma entidade odontológica, nem ter sustentação na melhor evidência científica disponível hoje.

Como o PL segue agora para outras comissões é preciso agir para impedir o pior. Em 20 de agosto foi encaminhado para a Comissão de Seguridade Social e Família, e tem como relator o deputado Alexandre Serfiotis, do PSD do RJ. De lá seguirá para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, onde será analisado conclusivamente. Serfiotis é médico cardiologista e foi secretário municipal de Saúde de Porto Real, RJ.

O pior da aprovação do PL-654/15 é que, ao invés de aprimorar as normas regulamentadoras do uso do mercúrio na prática odontológica, instituirá uma proibição, que não encontra guarida na literatura científica sobre o produto. A par do equívoco de confundir o uso do mercúrio para fins de garimpo e seu uso odontológico, a lei derivada do referido PL proibirá, em todo o território nacional, de modo liminar e categórico, uma prática sanitária de abrangência planetária, cujos primórdios remonta ao século 7 e que se consolidou no século 19, sendo amplamente reconhecida como uma "boa prática sanitária" durante todo o século 20 e nas primeiras décadas deste século. Não há nenhuma razão substantiva, nenhum conhecimento novo que justifique a presente iniciativa legislativa. Sua única finalidade, ao que parece, é mesmo prestar uma “homenagem” ao ex-deputado Anthony Garotinho.

Outro aspecto a considerar, inclusive em termos judiciais, é que a eventual aprovação do PL-654/15 implicará rendição laboral aos profissionais de odontologia aptos a realizar restaurações com amálgama, pois lhes proíbe o uso do mercúrio e não lhes dá alternativas, chegando ao cúmulo de lhes ameaçar com a cassação do alvará de funcionamento. São várias dezenas de milhares de profissionais que, em todo o Brasil, devidamente habilitados pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), ganham o pão com o suor do seu trabalho. Há, nesse caso, violação do artigo 5º da Constituição da República, que dispõe, no parágrafo XIII que "é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.  Não havendo razão, conhecida pela ciência e reconhecida pela lei brasileira, para que cirurgiões-dentistas possam livremente exercer seu trabalho profissional, uma vez que, devidamente habilitados pelo CFO, atendem as qualificações profissionais que nossa lei estabelece, a aprovação do mencionado PL flagrantemente lhes cerceará a liberdade de exercício profissional. Escrevi, a propósito de uma lei estadual de mesmo teor no Rio de Janeiro, que é fatal que seja arguida a inconstitucionalidade dessa lei que, no limite, arranha a democracia.

Este assunto é muito sério, e complexo em termos sanitários, para ser tratado de forma tão superficial pelo Congresso Nacional brasileiro.

Com efeito, sabedores das consequências danosas do mercúrio ao ambiente, os países têm, corretamente, criado legislação sobre o seu uso, fixando normas reguladoras para seu emprego na indústria (soda cáustica, agrotóxicos variados, termômetros, barômetros, lâmpadas fluorescentes, cimentos, dentre outras) e no setor de extração mineral (ouro, dentre outros). Também o Brasil o faz. Mas, é importante assinalar este aspecto, as normas reguladoras dos países são, de modo geral, omissas em relação ao uso médico-odontológico do mercúrio. E, outras, ficam no plano das recomendações, não vetando o uso. Cabe assinalar que o  mercúrio vem sendo utilizado em muitos países, incluindo o Brasil, como fungicida, na composição de antissépticos e na conservação de vacinas, dentre outros usos. E, nas restaurações dentárias, mercúrio é amplamente utilizado em todo o planeta. Por essas razões, é preciso ter prudência para não demonizar um elemento químico, mas utilizá-lo de modo racional e seguro, a favor e não contra a saúde humana.

Quanto ao uso odontológico do mercúrio, é preciso cautela para não aceitar leviandades leigas de que o mercúrio é um "veneno na boca das pessoas", ou como diz o autor do PL “causa perturbação crônica e progressiva das funções metabólicas e celulares dos indivíduos a ele expostos”, uma vez que não há qualquer base científica para esta afirmação. Não há estudos baseados em provas científicas que demonstrem que o mercúrio, preso estruturalmente à malha metálica que constitui com a prata, estanho, zinco e cobre em restaurações dentárias, esteja associado com qualquer agravo à saúde humana, ou que se constitua em “fonte antropogênica significativa de mercúrio ambiental”. Nas condições em que é utilizada na amálgama dentária, o mercúrio fica retido quimicamente à estrutura, não sendo liberado para o corpo humano que contém a restauração. Estável e quimicamente inativo, o mercúrio de restaurações dentárias não é liberado para o ambiente, nem mesmo após o óbito e o consequente sepultamento (a cremação é a única exceção). Ao contrário de declarações alarmistas, feitas por pessoas sem credenciais científicas, não há qualquer possibilidade de que, nas condições habituais em que uma restauração de amálgama é realizada, seja colocada em risco a vida humana de quem recebe a restauração. Escrevi anteriormente, e reitero neste artigo, que trocar restaurações de amálgama de prata por outros produtos químicos é ato odontológico tão inútil quanto desnecessário, do ponto de vista sanitário.

Não há qualquer justificativa científica para fazê-lo, não sendo, aliás, recomendável que o procedimento cirúrgico seja realizado, por riscos de iatrogenia, inerentes a procedimentos desse tipo.

Nos Estados Unidos, a ADA – Associação dos Dentistas dos EUA e a FDA – Agência Reguladora de Medicamentos e Alimentos informam que o consumo de mercúrio no âmbito odontológico corresponde a apenas 3% do seu uso geral. Por isso, é preciso considerar que o mercúrio de uso odontológico não é o vilão ambiental que alguns querem crer. Isso não diminui, por certo, a necessidade de se utilizar o mercúrio de modo responsável na prática odontológica, levando em conta seu impacto ambiental. Mas permite dimensionar adequadamente o que esse uso representa em um contexto mais geral.

Quanto ao uso de mercúrio nas restaurações de amálgama feitas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e na imensa maioria dos consultórios odontológicos no Brasil, essa prática resulta dos conhecimentos científicos atuais e da experiência mundial com seu uso, cujo início remete ao século 7, com os chineses e, na forma conhecida atualmente, no século 19, com franceses e ingleses.

No Brasil, tanto o Ministério da Saúde, quanto as principais entidades odontológicas, como o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e a ABO (Associação Brasileira de Odontologia), têm adotado posição favorável à continuidade do uso do mercúrio, com recomendações sobre a manipulação do produto, descarte de resíduos, dentre outros cuidados aplicáveis a produtos de uso em estabelecimentos de saúde de modo geral. Os manuais da Anvisa estão à disposição de todos e constituem um guia seguro para o uso racional de mercúrio, quando isto é necessário na prática odontológica.

Registre-se que não se trata de "tolerar" o uso, como se tem divulgado, mas reconhecer que, utilizado adequadamente, não oferece risco significativo à saúde humana e se constitui em importante aliado, por sua qualidade e preço, na estratégia de universalização dos cuidados odontológicos. A interrupção do seu uso, neste contexto histórico brasileiro, a par de desnecessária do ponto de vista científico, teria impacto negativo significativo para as atividades odontológicas desenvolvidas no âmbito do SUS e no setor privado, penalizando assim, sobretudo, os segmentos populacionais de baixa renda. Paralelamente, pesquisas sobre novos materiais de uso odontológico devem ser estimuladas, apoiadas e induzidas por nossas agências de fomento à investigação científica, para que estes possam, em algum momento no futuro, substituir a amálgama de prata em restaurações dentárias, de modo ambientalmente seguro e sustentável. Até lá, não há porque temer o mercúrio, mas utilizá-lo também de modo ambientalmente seguro e sustentável nas clínicas odontológicas, do SUS ou particulares, em todo o Brasil.


 

DEPOIMENTOS

“ É responsabilidade do CD participar dessa discussão”

A aprovação do Projeto de Lei 654/15, do deputado Luiz Nishimori, na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, da Câmara Federal, é mais um sinal que a sociedade brasileira está mobilizada para enfrentar temas de relevância para a sustentabilidade.  A discussão sobre o amálgama já tomou outros rumos e vai muito além do nosso debate se o amálgama é bom material restaurador ou não.   Os projetos de lei contra o mercúrio serão cada vez mais frequentes.  Assim como em outros países, o Brasil também terá restrições cada vez mais duras para comercialização e transporte do mercúrio.  Depois do Tratado de Minamata, da ONU, assinado em 2013 para eliminação do mercúrio a questão passou a ser a sustentabilidade.  Isso é tão sério para a vida humana que tem alcançado as primeiras páginas de jornal em todo o mundo. Todos precisam fazer sua parte e reduzir o impacto sobre o ambiente, inclusive os dentistas.  Apesar de existirem muitos usos industriais do mercúrio, no nosso caso, o problema é gravíssimo devido ao despreparo dos consultórios.  A questão do impacto ambiental de resíduos de amálgama/mercúrio é muito séria. 

Claudio Fernandes

PhD, Professor adjunto da Universidade Federal Fluminense (UFF), Campus Nova Friburgo.

Coordenador do Núcleo de Normalização Técnica na Odontologia da UFF.

Coordenador de Odontologia da ABNT. Chefe de Delegação Brasileira no TC106/ISSO.

Consultor da Comissão de Ciências da FDI 

Diferente do que alguns podem pensar, a contribuição do dentista para a poluição de mercúrio é extremamente elevada.  Segundo publicação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Agência de Proteção ao Meio Ambiente da ONU (UNEP), para promover a redução do uso de amálgama dental em países em desenvolvimento http://www.unep.org/chemicalsandwaste/Portals/9/Mercury/Products/dental%20mercury%20phase%20down%20project%20brochure%20FINAL.pdf, o consultório odontológico é um dos maiores emissores de resíduos.

Frequentemente, é a maior fonte de mercúrio em águas residuais municipais, no solo via lodo de esgoto (resíduo de estações de tratamento), eliminação na terra em lixões e pelo sepultamento de pessoas falecidas com obturações dentárias e uma fonte crescente de poluição do ar, devido a incineração de lodo de esgoto e incineração em crematórios, tanto pelo aumento da cremação mas também ao aumento da percentagem de amálgama retida nos dentes dos falecidos.

A maioria dos consultórios dentários está despreparada para lidar com os resíduos da instalação de novos amálgamas ou da retirada daqueles que falharam e a maior parte do resíduo segue direto para o lixo ou para o esgoto. No Brasil, nós não temos separadores de amálgama no mercado ou sequer um sistema eficaz de recolhimento das partículas armazenadas. Faça essa continha simples que é usada como referência em todo o mundo: considerando que cada dentista retire em média dois amálgamas por dia (cerca de 4g), 20g por semana, 90g por mês e cerca de 1kg por ano (cerca de 500g de mercúrio);  considerando 150 mil CDs ativos esse cálculo dá cerca de 75 toneladas de mercúrio no ambiente. 

Comparando com os maiores poluidores, isto coloca o dentista como o 2º  maior emissor de mercúrio no Brasil, perdendo somente dos garimpos ilegais na Amazônia e 30x maior que a indústria de lâmpada fluorescentes por vapor de mercúrio.

Há diversos aspectos que precisam ser melhor debatidos como por exemplo, o custo para a saúde pública no uso de produtos contendo mercúrio.  Diferente de uma análise superficial que frequentemente defende o uso do amálgama dental por ser uma restauração de “baixo custo”, o artigo “Environmental costs of mercury pollution” de Hylander & Goodsite de 2006 mostra que o real custo dos produtos que utilizam mercúrio devem incluir os gastos para prevenir ou limpar a poluição causada pelo mercúrio. 

Um estudo de viabilidade do potencial de redução da poluição de amálgama dental e de baterias desenvolvido para a Comissão Européia de Meio Ambiente, também corrobora essa análise (http://ec.europa.eu/environment/chemicals/mercury/pdf/final_report_110712.pdf).  A OMS no documento já citado, que recomenda a redução do uso de amálgama em países em desenvolvimento, diz que o custo real do mercúrio dental não faz do amálgama a restauração mais econômica para o paciente.  Externalidades negativas (impacto sobre o ambiente) associadas com o uso do amálgama dental não são calculados no preço real de restaurações de amálgama dental.  Portanto, promover a redução do uso de amálgamas dentais gera benefícios ambientais e para a saúde.

É responsabilidade do cirurgião-dentista participar dessa discussão e propor soluções que nos levem a uma odontologia mais sustentável. Não podemos mais ser negligentes com o impacto ambiental que geramos. A sociedade brasileira vai nos cobrar por isso.

Referências

UNEP and WHO. 2014. Promoting the phase down approach of dental amalgam in developing countries.

L.D. Hylander, M.E. Goodsite. Environmental costs of mercury pollution / Science of the Total Environment 368 (2006) 352–370

European Comission DG ENVIRONMENT 2012. Study on the potential for reducing mercury pollution from dental amalgams and batteries. Final Report. Bio Intelligence Service.


 

“Fatos são estudados com critérios

rigorosos e aceitos no mundo todo”

Depois de tudo o que foi apresentado no Rio de Janeiro* com respeito a esse assunto, retorna à pauta a questão do uso do amálgama de prata em restaurações no nosso país.

Novamente ao analisar o texto do PL nota-se o desconhecimento do autor com respeito ao conteúdo que deseja abordar, mostrando a fragilidade que um assunto como esse é tratado e o perigo que representa à sociedade brasileira.

Vejamos o paragrafo 2o:

§ 2º. A proibição imposta no caput objetiva proteger a saúde dos profissionais da área odontológica, pacientes e meio ambiente, por conta do mercúrio na sua composição.

A literatura científica, que se estende a inúmeros trabalhos, não correlaciona o uso de restaurações de amálgama aos problemas de saúde descritos na justificativa desse PL por absoluta falta de evidências científicas que o suporte.

Profa. Dra. Mary Caroline
Skelton Macedo

Professora de Endodontia e Teleodontologia na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FO-USP).

Pós-doutorado em Teleodontologia. Conselheira do CRO-SP nas gestões 2013/14 a 2015/16

Então, como proteger a saúde dos profissionais e pacientes (também esqueceram aqui da equipe técnica, citada no parágrafo anterior)? Bem, para responder a essa questão, basta ter olhos atentos ao que diz o Tratado de Minamata, assinado por mais de 140 países, inclusive pelo Brasil, e que não dá suporte à proibição do uso do amálgama de prata: há uma página inteira no tratado que mostra como manusear adequadamente o material para que se corra riscos mínimos de contaminação. Por que o Tratado apresentaria uma página como essa se está apresentando razões pelas quais devemos abandonar o uso de mercúrio até 2020? Pelas mesmas razões que contrapus o texto do parágrafo 2o: a ausência de evidências científicas que correlacione seu uso com as patologias descritas na justificativa do PL.

Além do que já foi relatado, as justificativas deste PL trazem aspectos que atestam ainda mais o desconhecimento do autor sobre fatos muitíssimo importantes: ali se diz que o amálgama a uma temperatura de 32oC emite fumos tóxicos. Bem, se assim o fosse, as evidências científicas necessárias para esta afirmação estariam perambulando pelas ruas de todo o país, já que a maior parte da população brasileira possui restaurações de amálgama e a temperatura corpórea é mais alta que a descrita! Temos alguns milhões de habitantes que desconhecem o fato de estarem com “graves desordens neurológicas” sem se darem conta disso! Se as desordens descritas são estas: danifica o cérebro, rins e fígado, causa problemas de desenvolvimento, desordem no sistema reprodutivo, distúrbios cognitivos, prejudica a fala, a visão, queda de cabelo (se acumula no bulbo capilar), distúrbios mentais, causa dificuldades de audição e caminhar” certamente estaríamos frente a um problema de saúde pública ímpar.... mas o problema de saúde pública é o que se gera com o desconhecimento e aplicação inadequada de afirmações soltas e removidas de seu contexto original.

Outro parágrafo da justificativa mostra o seguinte: Vale ressaltar que o uso do amálgama dentário necessita de cuidados especiais para os profissionais de saúde: dentistas, técnicos em saúde bucal, auxiliar em saúde bucal e pacientes, para que estes não se contaminem. Devem fazer o uso de EPI (equipamento de proteção individual) específicos, material odontológico especial e industrial para servirem de barreira e de ventilação na área aonde deverá ser removida a restauração de amálgama de prata, técnicas e materiais que não utilizamos em nosso sistema de saúde pública. Também existe a problemática relacionada ao gerenciamento de resíduos perigosos na área da saúde em que o amálgama está incluído.

Este texto mostra a desproporção entre a intenção apresentada pelo PL e a falta de análise adequada da questão: se não temos técnica e nem materiais na Rede Pública brasileira, como será realizado o descarte desse material sem que se contamine equipes técnicas, profissionais, pacientes, funcionários e o meio ambiente? Essa desproporção aponta nova fragilidade da justificativa e não pode permitir que se viabilize tal projeto de lei, embasado em alarmismo e má condução científica do que aponta em seu conteúdo. Alarmismo esse que pode sim gerar uma remoção desnecessária de inúmeras restaurações aptas, o que causaria um desastre ambiental sem precedentes, motivado por alguns políticos que querem gerar mídia e votos, mas não estão efetivamente dispostos a cuidar da saúde das pessoas a quem deveriam servir.

E os absurdos ainda caminham para além desses fatos: o texto diz que existem alternativas viáveis ao amálgama dentário, citando as resinas e a técnica ART com o material empregado como sendo restaurador apropriado. Considerando as evidências científicas atuais, esses materiais não chegam a alcançar 1/3 da vida de uma restauração de amálgama, o que causa desde a perda de substância dental em novas e novas restaurações a serem feitas ou em novas cavidades de cárie instaladas. Além disso, a técnica ART é conhecida e bem aplicada como uma técnica de restauração provisória, muito utilizada para controle da doença cárie em países com alta incidência. Mas veja: restaurador provisório!

E, para encerrar o disparate, esse parágrafo chama a atenção: No Brasil, já contamos com alguns exemplos de banimento do amálgama na saúde pública. Segundo o Chefe da Área Técnica Saúde Bucal/PMV/SEMUS/GAS da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória –ES,  Dr. Egídio Davilla Junior CRO-ES 2569, naquele município, as restaurações de amálgama de prata foram abolidas desde 2013, sendo substituídas pelas restaurações de resinas compostas fotopolimerizáveis, em consonância com o estabelecido na RDC/Anvisa n°306 de 07/12/2004. Esta RDC não trata sobre a troca de restaurações, pois seria um completo desvio de função do órgão!

Que se procure uma das Faculdades de Odontologia de importância científica no país para embasar ou compreender questões como essa, pois existem profissionais que se dedicam a estudar tais fatos com critérios rigorosos e aceitos no mundo todo, lembrando que recentemente a Odontologia da Universidade de São Paulo foi ranqueada em 12o lugar no mundo e tem discutido a questão com propriedade e preocupação, justamente para não incorrer em erros irreparáveis, ingênuos e que podem causar muito maior dano do que a intenção que esse PL possa almejar.

* http://www.jornaldosite.com.br/arquivo/amalgama/simposioamalgama2014.pdf 


 

“Problema deve ser  tratado já na faculdade

para formar CDs conscientes e responsáveis”

O uso do amálgama como material restaurador vem provocando polêmica há bastante tempo. Mesmo acordos internacionais como o de Minamata sobre o mercúrio indicam a necessidade de reduzir os impactos ambientais que possam afetar a saúde, mas a restauração feita com amálgama não consta da proibição.

Não há registro, até 2013,  de possíveis vapores provocados por resíduos de amálgama (estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). Segundo artigo do prof. Mondelli http://www.jornaldosite.com.br/arquivo/amalgama/artigomondelli.pdf , por exemplo, mesmo a  quantidade de vapor liberado das restaurações de amálgama pela cremação para a atmosfera, por ano, mundialmente, não chega a 1% do total.

Assim, face aos históricos dados de sucesso ao longo do tempo, as restaurações de amálgama devem continuar sendo utilizadas,

Dr. Silvio Cecchetto

Cirurgião-dentista

Formado pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp/Araraquara), presidente da Associação Brasileira de Cirurgiões-dentistas (ABCD)

principalmente devido à exigência do atendimento social da população pelo SUS, sem receio de efeitos colaterais, desde que sejam seguidas as regras estabelecidas pelos órgãos competentes, como a Anvisa, para preservar o meio ambiente e o consultório.

Proibir o emprego do amálgama não resolve o problema. Temos, sim,  que tratar desta questão já na faculdade para  formar profissionais conscientes e responsáveis para que, em momentos decisivos como este, em que corremos o risco de ver um projeto de lei ser aprovado sem ter embasamento científico, saibam sair em defesa da odontologia e da saúde bucal da população.


“Amálgama cumpriu sua

 etapa na história da profissão”

A proibição do amálgama era uma questão de tempo, pois as recomendacões e normas de controle ambiental, insalubridade e vigilância sanitária não contemplavam mais a co-existência com o manuseio e descarte do mercúrio ali contido. Apesar de ser um material de enormes serviços prestados à odontologia durante sua existência como a melhor e mais durável opção para restauro direto de dentes,  especialmente quando a odontologia adesiva não dispunha do status atual, estou certo de que ele cumpriu sua etapa na história da profissão. Como, durante anos, ainda veremos o descarte de restauros e fragmentos de amálgama de restauros antigos desse material, é importante não esquecer da recomendação de descarte seletivo das sobras do material removido da boca dos pacientes, bem como da orientação aos que dele ainda dispõem na sua boca, sobre os cuidados necessários, em caso de problemas.

Dr. Rodrigo G Bueno de Moraes

Cirurgião-dentista.  

Mestre em odontologia pela Universidade Paulista Unip), consultor técnico da ABCD para temas de mídia e membro da Câmara Técnica de Periodontia do CRO-SP


“Adeus amálgama, obrigado por
tudo.
 Foi bom enquanto durou”

O uso de amálgama na odontologia sofreu nos últimos anos graves restrições. Não pelas suas características como material restaurador mas sim pelos efeitos que causa ao meio ambiente. Em países escandinavos  há muito tempo o amálgama foi condenado por conta dos vapores exalados quando da cremação de cadáveres.

No Brasil, agora em pleno século XXI,  esta discussão chegou e, é claro, trazendo muita polêmica. Nem se fale no fato de que na maioria dos consultórios odontológicos não se fazem restaurações de amálgama de prata pelo simples fato de que os pacientes preferem uma restauração estética feita com a malfadada resina acrílica.

Quem defende e apoia o fim das restaurações de amálgama é acusado de fazer parte do lobby da indústria de resinas, de ser  elitista, enfim de ser contra o bem-estar da população por conta de interesses inconfessáveis.

Dr. Rui Andrade Dammenhain

Cirurgião-dentista, formado pela Faculdade de Odontologia Camilo Castelo Branco.

Especialista em Vigilância Sanitária e diretor presidente da Instituto Brasileiro de Auditoria em Vigilância Sanitária

A realidade, ao meu ver, é um tanto simplista: considerando que existem políticas mundiais que restringem o uso de mercúrio nada mais lógico do que substituir o amálgama de prata por resinas.

Isto me faz lembrar os antigos anos de 1980 quando endodontistas questionavam o uso de luvas pelo fato das mesmas tirarem a sensibilidade táctil.

O progresso chega e aqueles que se apegam ao passado acabam sendo atropelados e desacreditados pelos fatos agora devidamente comprovados e certificados.

Adeus amálgama, obrigado por tudo, foi bom enquanto durou mas como se diz hoje em dia: a fila anda....

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